NITERÓI/RJ
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Mulheres possíveis

Renata Castelar desromantiza a maternidade. Para ela, sua relação com Maria se constrói no dia a dia

Foto: Lucas Benevides

Seria até equivocado categorizar todos os tipos de mulheres possíveis em um texto. Entretanto, podemos dizer que nós somos diversas e que cada uma enfrenta sua batalha diária todos os dias ao abrir os olhos. Mãe, negra, lésbica, profissional liberal, todas elas ao mesmo tempo ou nenhuma delas e outras possibilidades, a questão é: sempre haverá uma história para ser contada e pontos de resistência que foram e são enfrentados ao logo de cada fase da vida, no cintilar dos olhos, entre lágrimas e sorrisos. 

A publicitária Renata Castelar, de 36 anos, chega para quebrar o tabu da maternidade romantizada. Mãe da Maria, de 1 ano e meio, nossa entrevista aconteceu enquanto a dupla tomava café da tarde e, entre uma resposta e outra, ela falava: “Opa, faca machuca, não pode” ou “Opa, soltou um pum”. Cada frase de atenção, cuidado e brincadeira forma uma mãe. 

“Não acho que toda mulher nasceu para ser mãe, mas, realmente, só sendo para saber como é. Não tive aquela coisa que todo o mundo fala: ‘Ai, a Maria nasceu, foi o melhor dia da minha vida’. Não é assim. É uma relação que vai se construindo aos poucos. Hoje, vejo que o que eu sinto por ela é muito profundo. Vou trabalhar e sinto saudades. O tempinho que tenho lá, pego o celular e fico vendo videozinho dela. É muito louco!”, exclama Renata.

Outro aspecto trazido até Renata pela gravidez foi o fato de se perceber mais e notar as necessidades de seu corpo. Quantas vezes a mulher se omite de seu próprio bem-estar e é sugada pelas demandas da rotina? 

“Trabalhei até o fim da gravidez e percebi que ela foi me preparando para tudo aos poucos. Era uma pessoa que nunca priorizava nada meu e, de repente, fui obrigada a me organizar e fazer vários exames, ir ao médico com frequência, me cuidar. Comecei também a resgatar a minha própria infância ao lado dela. A simplicidade que a criança traz nas brincadeiras é incrível. Elas não precisam de quase nada para se divertir. Às vezes, um graveto na praia é capaz de fazer uma revolução lúdica, desenhando na areia”, analisa Renata. 

Lésbica e muito bem-aceita entre familiares e amigos, a cantora Analuh tem consciência de que esta não é a realidade da maioria

Foto: Lucas Benevides

A cantora e professora de Música Ana Luiza Custódio, de 23 anos, conhecida como Analuh, é lésbica e mantém um relacionamento amoroso com Amanda. Apesar de ser “muito sortuda”, como ela mesmo diz se referindo à aceitação de sua família e amigos, a jovem compreende que não é assim que acontece com a maioria das mulheres lésbicas.

“Quando me descobri e me assumi lésbica, fui muito bem acolhida nos espaços que convivo, tanto pessoais como profissionais. Mas essa não é a realidade da maioria. Às vezes, percebo um olhar preconceituoso, mas isso não é nada perto do que muita mulher sofre. Deveríamos ter assegurada a nossa existência. Fui hétero até os 20 anos, tive uma descoberta tardia. Quando me permiti viver isso, me senti no lugar certo e tudo se encaixou. A partir daí, as outras mudanças foram naturais”, resume.

Analu participa, aqui em Niterói, do coletivo (que chamam de “coletiva”) Oitava Feminista, focado em pautas de mulheres lésbicas e bissexuais. O grupo se reúne para estudar, construir eventos, buscar formas de uma ajudar as outras, participar de movimentos políticos em prol de mulheres que amam mulheres, entre outros motivos. 

“Tenho muito orgulho das minhas companheiras de militância. Mulheres, mesmo que não se considerem feministas, lutam todo dia por espaço, por respeito. Uma mulher que sai pra trabalhar, que estuda, já desafia as regras do patriarcado. E, mesmo aquelas que não trabalham, que são casadas e rejeitam qualquer forma de feminismo, elas estão lá, segurando as pontas em casa, com os filhos, com o marido, para as coisas caminharem. De qualquer forma, estamos sempre resistindo. E é exatamente isso que nos faz ser tão incríveis, é a maior dor e a maior dádiva de ser mulher nessa sociedade”, ressalta a cantora. 

Ciente das dificuldades de ser uma mulher negra no Brasil, Celly admite que ainda é alvo de assédios constantes. Hoje, entretanto, sabe como reagir

Foto: Lucas Benevides

A diversidade entre as mulheres é uma característica central dos movimentos feministas. Camila Fernandes, doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ), explica que, desde sua aparição no cenário internacional e no Brasil, diferentes setores do movimento feminista se organizaram em prol de lutas diferenciadas, que expressavam demandas muitas vezes inconciliáveis. 

“A filósofa norte-americana Judith Butler escreveu sobre as dificuldades de criação de um sujeito único que represente a ‘identidade’ das mulheres. Angela Davis, por sua vez, mostrou como foi difícil, no contexto da luta pelos direitos reprodutivos, que mulheres brancas em busca do controle de natalidade ouvissem as demandas das mulheres negras – os principais alvos da política de esterilização em curso nos EUA – pela garantia do direito de ser mãe. No Brasil, acadêmicas e ativistas feministas expressam esta pluralidade de demandas na luta por direitos que garantam melhores condições às mulheres. Exemplo disto são as discussões sobre regulamentação da prostituição ou mesmo a descriminalização do aborto. Ou seja, quero dizer que a luta feminista nunca foi feita a partir de um ponto de vista unilateral e sempre comportou uma divergência de pautas e reivindicações, que, inclusive, garantem a força do movimento. Somos diferentes em regiões, etnias, religiões, projetos e desejos, isto nos conduz à necessidade de escuta e à composição do comum a partir das trocas entre realidades das mais diversas”, esclarece a antropóloga.

A ideia não é exaltar as dificuldades de nascer menina, mas, sim, mostrar que elas ainda existem e que é uma questão cultural estrutural que pode ser mudada a partir da informação, do reconhecimento do valor da mulher, da desmistificação do estigma de inferioridade em relação ao homem. Quando era criança, a estudante, modelo e microempreendedora Gracielly Linhares da Costa (a Celly), de 21 anos – que faz parte da banda Pier 49 Music –, dizia que queria ser menino. Essa é uma parte do “problema”.

“Acho que, para mim, parecia ser mais fácil ser menino, infelizmente. Analisando, por exemplo, o mercado de trabalho, a segurança na rua... Tudo isso os meninos tiram de letra. Para ser mulher é preciso ter garra, força, e, principalmente, coragem. Todos os dias, encontro um desafio diferente por ser mulher”, aponta Celly.

As mulheres são submetidas a todo tipo de violência – física e simbólica – com uma frequência muito maior que qualquer homem. Celly conta que sempre passa por situações de assédio e que o que mais a incomoda é não respeitarem seu espaço. A objetificação do corpo da mulher – principalmente do corpo da mulher negra – construiu ao longo dos anos esse comportamento invasivo e desrespeitoso. 

“O que mais me deixa com raiva é que encostem em mim. Uma vez, o cara se achou no direito de me segurar pela cintura. A ‘desculpa’ dele foi que tinha acontecido porque eu estava sozinha em um evento movimentado. Ele disse que, se eu não quisesse sofrer esse tipo de coisa, ou eu não passasse na frente dele ou eu ficasse em casa, porque ‘mulher decente não sai sozinha, se não quiser arrumar algo’. Me senti péssima”, desabafa Celly, que confessa o quanto amadureceu ao longo dos anos: “Costumo dizer que a Celly de antes não existia, ela não sabia quem era, o que queria e se deixava levar por opiniões de outras pessoas que a limitavam até de sonhar, era uma menina extremamente oprimida! A Celly de hoje se descobriu, se libertou, sabe ser livre para ser e fazer o que quiser. A Celly de antes era apenas um corpo vagando, e a de agora é alguém que vive”.

Divorciada, Santusa Esteves resolveu reinventar-se quando decidiu deixar o interior de São Paulo rumo a Niterói com os dois filhos. Aqui, tornou-se chef de cozinha, assumindo a direção de um estabelecimento em Icaraí

Foto: Divulgação/Shay Esterian

Coragem e garra estão entre as características da chef de cozinha Santusa Esteves, de 44 anos, que acompanhou o fim da vida dos pais e, em 2016, decidiu sair do interior de São Paulo para vir para Niterói, onde a filha Shayen, de 24 anos, estava cursando universidade. Solteira, tendo passado por dois casamentos, no dia 21 de fevereiro daquele ano, às 4h30, Santusa pegou seu carro com seus filhos dentro, levando apenas roupas e uma batedeira, e dirigiu por 12 horas de estrada para Niterói, sem nunca ter dirigido por tanto tempo e para tão longe.

“Coloquei o endereço novo no GPS e olhei para minha casa, que já havia vendido, e me perguntei se estava fazendo a coisa certa. Eu era a adulta responsável, que tinha dois filhos sob meus cuidados e não poderia errar de forma alguma. Tive medo do que encontraria no Rio de Janeiro. Hoje, Niterói, assim como o estado do Rio de Janeiro, é pra mim um divisor de águas. O renascimento de uma nova Santusa. Aqui, muitas portas se abriram, o que foi e é muito importante pra mim. Antes, eu trabalhava em outra área, não porque era uma escolha de vida, mas, sim o que o local onde eu vivia me oferecia, então, eu não era feliz. Hoje, trabalho com o que gosto, com o que amo fazer. A gastronomia pra mim é uma realização pessoal, algo que decidi fazer por mim. E vivo muito feliz”, confessa. 

Além das batalhas profissionais, Santusa já enfrentou o preconceito por ser divorciada ao buscar emprego e não ser contratada porque a dona do lugar não a queria perto de seu marido – ela foi dispensada antes mesmo da entrevista e soube depois o motivo. Seu estado civil também foi motivo de assédio.

“Logo depois do episódio mencionado, fui trabalhar em um outro escritório. Lá, sofri assédio pelo gerente da empresa, que já tinha por hábito fazer isso, e viu em mim uma mulher fácil por ser divorciada. Como eu não cedi às investidas, fui demitida. Uma mulher divorciada era e é vista como uma mulher que não conseguiu manter seu casamento, mas, na realidade, é uma mulher que conseguiu derrubar a ideia de que não era capaz de ser feliz por si só”, enfatiza. 

De acordo com a antropóloga Camila, o que ocorre é que, no contexto político atual, com a ascensão de governos autoritários e de extrema direita, esta pluralidade de reivindicações e liberdade de expressão está ameaçada. 

“Somente neste início de ano, tivemos uma tentativa de um deputado tentando proibir o uso de anticoncepcionais e, mais recentemente, há a tentativa de desengavetar a PEC que regulamenta o aborto legal, ameaçando mulheres vítimas de estupro de não poderem decidir sobre o futuro da sua gravidez, fruto de uma violência sexual. Neste início de ano, o STF também discute a criminalização da homofobia, dentro de um País que mais mata LGBTIs: o Brasil”, pondera.

Para Camila, a luta das mulheres está alinhada à luta antirracista, que, por sua vez, está atrelada à luta pela vida e dignidade da população LGBTI. Portanto, elucida a antropóloga, o papel da mulher é estar atenta às tentativas de destruição dos nossos direitos”. 

“O valor das mulheres está na sua capacidade de não abaixar a cabeça para toda e qualquer autoridade ou lei que venha tentar controlar nossos corpos. Não vamos deixar de pautar nossos direitos e desejos, pois eles falam sobre a nossa possibilidade de sobreviver e criar num mundo cada vez mais desigual”, reivindica Camila. 

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