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Na noite passada, eu sonhei com a gente

Rio de Janeiro, 6 de maio de 2018

Na noite passada, eu sonhei com a gente. Morávamos em uma cidade do interior (da Bahia, será?), e éramos bem-sucedidos. Uma casa que era a nossa cara, simples, com plantinhas por toda parte e móveis com alguns rastros de pelo dos dois gatos. Uns quadros que já eram seus desde os tempos do subúrbio estavam na parede. Não me lembro de mais detalhes, porque até para sonhos a minha memória é péssima, mas foi reconfortante acordar e ter a certeza de que você está ali, até no inconsciente. E, mais, sei que éramos bem-sucedidos porque você me recebeu com um sorriso generoso e me entregou um copo americano com um pouco de cachaça Gabriela. Enquanto houver sorriso e algo mais que também entorpeça, estamos bem. Esse sempre foi o trato.

Pensei horas a fio na nossa vida, dois amigos que sucumbem à loucura do Rio de Janeura, onde todo o mundo se conhece, mas nem sempre se fala. Onde o povo até flerta – melhor que em São Paulo –, mas nem sempre dá conta de um encontro em que a gente oferece um café da manhã depois… Um lugar lindo, que inspira a gente a rir. Às vezes de nervoso. A gente escolheu morar aqui. Loucura, né? Fui à praia um dia desses, agradeci a Ogum, a São Jorge, a todo o mundo pela graça da vida, apesar dos dragões. Do nada, baby, rolaram uns pipocos de tiro, uns cinco, em sequência. O povo olhou em volta e seguiu no clima do mate e biscoito Globo. Tranquilo, tranquilo. Morre gente à beça, em toda esquina, uma tristeza. Mas estamos vivos, não podemos esquecer. Vivemos nesse binarismo, um caos. 

Essa cidade me atravessa (sigo saudosa da Calcanhotto).

Revi minha vida, e, pra ficar mais fácil, coloquei você nesse bolo. O que prende a gente aqui, né? Por que escolhemos estar no centro de tudo? Ou melhor: por que escolhemos acreditar que estamos no centro de tudo? Uma besteira daquelas, mas me tomou um café da manhã inteiro. Ia e voltava naquela ideia que a gente brinca, mas é um pouco verdade: o Rio não é para mim – eu quero uma casa no campo – não aguento mais –, vivemos numa bolha – pelo menos tem o carnaval… Mas estamos aqui há anos. Cômico e trágico.

Eu fiquei nessa viagem, porque logo em sonho, na quarta-feira, véspera de nada, eu vi que a gente criou vergonha na cara e largou isso tudo aqui para estar à beira do nada – aparentemente. Uma cidade do interior, numa casinha nossa, com a nossa cara. Lembrei de como a gente é simples e nossos desejos são possíveis: uma comida boa, uma bebida gelada, um calorzinho para aquecer a alma (não dá pra mudar pra Curitiba, desculpa). Simples. A gente só quer um pouquinho de afeto. Se possível, por favor, um afeto maduro, que transe da nossa transa, beba do nosso drinque. E, se for assim, a gente já se basta. 

Pensei que talvez por isso eu tenha levado você comigo, até no inconsciente. Um amor que me ensinou a ver a vida sem ceder sempre à lógica do resultado. Sem esperar bom-senso de nada nem ninguém, porque são vários pesos e várias medidas. Mas sempre selecionando o joio do trigo, evitando as neuroses – nossas e dos outros – orando às deusas pra dar tudo certo. Aqui ou na Bahia, anote: um amor verdadeiro, cerveja sem milho e muito pão. É a fórmula da verdadeira felicidade.

Com carinho,
da amiga ranzinza que te ama. 

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