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Nada se perde

Para a professora universitária Alessandra Aldé, 50 anos, a reforma do apartamento foi uma oportunidade para pôr em prática valores adquiridos ao longo da vida

Foto: Lucas Benevides

Por causa da necessidade urgente de cuidar do planeta, diminuindo o lixo e o uso indiscriminado de materiais que poluem, pessoas estão cada dia mais dispostas a dar novos usos a materiais antes descartados. Se antes reciclar parecia um conceito distante dos melhores projetos de arquitetura e interiores, agora, é cada vez mais comum encontrarmos soluções com materiais de reúso, conferindo, além da sustentabilidade, charme e estilo às residências. 

O reaproveitamento pode trazer personalidade para o projeto, defende a arquiteta Letícia Loureiro, que, junto com Bruna Maciel, reciclou itens na decoração de um quarto de bebê. 

“Quando existe um valor sentimental envolvido em um móvel ou em um objeto, por exemplo, reaproveitar é uma ótima opção, porque pode dar uma outra função para algo que não desejamos nos desfazer”, destaca Letícia.

Para a professora universitária Alessandra Aldé, 50 anos, a reforma do apartamento foi uma oportunidade para pôr em prática valores adquiridos ao longo da vida. Uma satisfação que, segundo ela, vai muito além de se viver em um ambiente bonito.

A releitura de objetos transforma a decoração em ambientes com originalidade

Foto: Divulgação

“Sempre fui de reaproveitar, não desperdiçar, não comprar. Sempre tive como valor a cultura do não desperdício. O apartamento que comprei precisa de um trabalho radical, pois estava fechado há 15 anos. Sei que a reforma urbana é o que gera mais resíduos na cidade, então pensei em conciliar essa reforma com a atenção que tenho para a questão ambiental”, explica Aldé.

Um trabalho que durou em torno de 4 meses fez Alessandra perceber que reaproveitar não é a opção mais fácil, precisa ter paciência, mas que também pode ser uma diversão. Segundo ela, o custo foi praticamente o mesmo de uma obra tradicional, mas com a satisfação de estar contribuindo para o meio ambiente.

“Em algumas coisas gastei mais, acreditando em uma economia depois, mas não foi uma obra cara, porque também tivemos muitas doações de materiais como mármores, vidros, metais, luminárias. O próprio mestre de obras me doou muita coisa de outras reformas que ele fez”, confessa.

Decoração de quarto de bebê com itens reciclados por Letícia Loureiro

Foto: Divulgação

Responsável pela reforma do apartamento da professora, um imóvel de 140m² em Santa Teresa, Rio de Janeiro, a arquiteta Daniela Rabello afirma que seguiu o pedido da cliente: aproveitar o máximo possível tudo o que já existia no imóvel.

“Começamos com cuidado com a demolição, mesmo o que não aproveitamos encaminhamos para que fosse usado por outras pessoas. Com esse cuidado, conseguimos retirar grande parte das cerâmicas do piso do banheiro, que foram colocadas no novo lavabo. Retiramos também as papeleiras e toalheiros de louça para um dos novos banheiros. Com a demolição e construção de paredes, remanejamos portas e janelas e até criamos um novo basculante com a bandeira de uma das portas, que não seria mais usada”, lembra a arquiteta.

De maneira consciente, segundo Rabello, podemos reduzir os impactos, dando vida a um projeto belo, durável e confortável. De acordo com a profissional, muitos dos materiais de demolição das casas são de boa qualidade, produzidos para durar décadas e, por isso, não deveriam ser descartados.

“Também restauramos as cubas antigas de ferro da cozinha para serem usadas nos banheiros, e toda a marcenaria foi feita com madeira de demolição ou com pedaços de armários que foram desmontados. Optamos em manter o taco do piso e fazer um sinteco. Além do material do próprio apartamento, garimpamos móveis, granitos, luminárias e mais um monte de coisas pela internet ou em brechós no Rio”, destaca.

As parcerias entre profissionais e empresas diminuem o descarte, como no projeto de paisagismo de Paula Brito, que transformou tambores de lata em móveis para áreas externas

Foto: Divulgação

Vemos cada vez mais surgir designers trabalhando a reciclagem com o objetivo de ajudar o planeta, mas também de encantar pessoas, afirma a paisagista Paula Brito, que transformou tambores de lata em móveis de jardim em um de seus projetos.

“Queria mostrar uma ideia simples, sustentável e funcional para as pessoas usarem em suas casas. Busquei materiais baratos e fáceis de encontrar, como tambores, malha de vergalhão usada em pisos, materiais encontrados em ferros-velhos e outros”, explica.

Parceira no projeto, Michele Marconatto afirma que a principal preocupação hoje é com o acúmulo de lixo dentro das cidades. Segundo ela, pensar projetos é pensar em como aplicar o conceito de sustentabilidade.

“Muitos profissionais e empresas já se empenham em criar novos meios de girar a economia e cuidar do planeta através do reúso. No mesmo projeto, também criamos dois deques e alguns jardins verticais utilizando pallets”, destaca Michele.

Além de favorecer a natureza, reaproveitar também se estende ao bolso do cliente, afirma a arquiteta Elaine Generoso, que, em parceria com David Luiz, criou um charmoso banheiro cheio de releituras.

 “Em nosso projeto, o aparador solto, que não tinha mais função para o morador, virou uma bancada. Conexões de tubo galvanizado foram o ponto forte no projeto. Com elas, criamos duas arandelas na lateral do espelho, que conferiram uma inusitada pegada industrial ao ambiente”, conclui Generoso. 

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