NITERÓI/RJ
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O amor pode dar certo

A lista de motivos frequentes de separações só cresce. São histórias que se repetem sem nenhuma garantia de que da próxima vez vai dar certo. São prometidas simbioses que nunca acontecem de forma plena. São expectativas de ser compreendido, amado e respeitado que parecem nunca atingir o grau de maturação que se faz necessário para O Amor dar Certo, assim, como título de best-seller americano. Para quem se identifica, um aviso, como um sino da libertação e uma possibilidade de ser melhor da próxima vez que o amor bater à porta: falar a mesma língua exige treino e sensibilidade. Exige observação, cuidado, troca, dedicação. Não vem no combo de quem ama, não. Isso é apenas uma besteira que todo o mundo insiste em reproduzir. Amor é muito mais do que osmose.

Felizmente, amar exige – grita – que os amantes saiam do casulo protetor. Exige uma transformação que só se aprende quando se ama, independente do tipo de relação que se construiu. Os relacionamentos todos, sejam os fadados ao sucesso ou não, precisam de ouvintes atentos, que não se apressam em responder antes de ter entendido o que o outro quer dizer. Relacionamentos, aqueles tão desejados, clamam por observadores atentos que têm olhos descortinados para um mundo que só é bonito para quem aprendeu a refletir sobre a realidade que enxerga. Ele requer tato, sabe? Exige uma espécie de nudez em relação aos próprios signos. É se esvaziar das próprias verdades e entender o outro. Amar é como uma observação participante, antropológica.

Parece bobagem e irrelevância, mas quem ama precisa conhecer o outro verdadeiramente. Precisa se dedicar a entender o que aquilo significa para ele. Isso exige paciência e dedicação, mas, olha que alívio, pode ser feito de forma leve e madura. Pode ser feito quando se larga o celular de lado e ouve o que o outro está dizendo. Pode ser visto também quando se questiona, pondera e entende que todos são muito diferentes, por mais próximos que possam ser. Sendo assim, nada mais justo do que reagir de forma distinta diante das questões da vida. Sem essa compreensão – e é uma pena chegar a essa conclusão – muitos relacionamentos que podiam trazer alegria e satisfação terminam por conta de uma barreira invisível de comunicação.

Os relacionamentos terminam, sim, por falta de diálogo. Mas, pior do que isso – se é que existe essa classificação de melhor e pior – é conversar e não ser entendido. É não ter uma interpretação homogênea que possa levar a uma segunda parte, a de tentar resolver, decidir sobre as possíveis concessões, acertos, aparo de arestas. E o melhor, depois disso tudo, apesar disso tudo, encontrar beleza nas diferenças e riqueza na raça humana, que consegue ser tão ímpar quando se trata de dar e receber amor a um “semelhante”. O século exige o extermínio de tudo o que não é fácil ou aparenta ser complicado demais para a geração dos smartphones e aplicativos geolocalizadores para transas, flertes, encontros. Não há mal nisso, veja bem. Mas pode chegar uma hora em que o coração vai querer descanso, e é nessa hora que precisamos largar nosso egoísmo e prepotência de lado.

Na prática, é muito mais fácil do que na teoria. É mais fácil porque existe um amor ali, que gera algum conforto. Existe uma segunda pessoa que espera ansiosamente pelo amadurecimento e transparência. Existem as viagens, as recordações, os costumes, a segurança, a autoestima. Mas é preciso estar disposto, em uma época que todo o mundo grita por todo canto “não estou disposta”. É preciso querer e, mais do querer, largar dessa insanidade de repetir os mesmos atos e querer, no fim da história, ter resultados diferentes. Estive ouvindo outro dia e é isso mesmo: o amor é dos espertos. 

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