NITERÓI/RJ
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O Outono

O outono chegou e, desde então, eu faço tudo pensando em comer e abrir uma garrafa de vinho. Me lembrei de um ano em que fiz pra gente uma playlist exclusiva para abrirmos sei lá quantas garrafas de vinho – promoção no mercado lá perto de casa. Isso tudo muito antes do Spotify. Aqueles brindes desejando que a vida não passasse desses momentos em que a gente se sente amado, acolhido, confortável. Amizade, amor, um tantinho de álcool, uma fumacinha. A gente sabia que não era isso sempre. E vez em quando era. Mas não é só por isso que escrevo.

Escrevo porque achei que não era capaz de me comover com mais nada.

Desculpa até por cortar a bossa da carta assim. É que depois dos amores imensos e das noites convivendo só comigo mesma, achei que nada mais me tiraria da minha razão. Na minha cabeça, seja de um jeito (mover com força, deslocar) ou de outro (impressionar-se, sofrer emoção viva e subitânea), não aconteceria de novo. Não me veio na cabeça nenhuma vontade louca de rasgar as fotos ou de incendiar as cartas. Não era nada semelhante à dor adolescente de perder um grande amor, por exemplo. Eu estava exausta. Farta. De saco cheio. O que eu queria mesmo era descansar. Era não precisar fazer uma força descomunal para viver sem alguma angústia de estimação. E isso de nada tinha a ver com as outras… e os outros.  

Poderia dizer com ar acadêmico e em tom professoral que passei um tempo enorme entendendo e investigando minhas individualidades. Mas a real é que eu dormi noites a fio com o celular no modo avião – soluções modernas. Troquei o pão pelo inhame (não recomendo). Entendi que energia é feita pra se gastar e arrumei um jeito menos nocivo de fazer isso. Estou fazendo. Evito alguns lugares no Rio de Janeura, só tem 10 pessoas morando aqui. E esse jeito natural de estar na vida sem esperar nada, sem esperar que haja um grande evento que me tire do lugar, me fez acreditar que eu não queria me comover além do que já estava posto. Aquele lance de sempre: se você quer paz, eu quero em dobro. 

Apesar do pragmatismo, me sentia viva, entende? Tinha decidido que enquanto eu ficasse por aqui teria que ficar viva e atenta. Atenta a mim. Aos meus sinais, à minha vontade imensa de não me repetir, de não ser condescendente às minhas neuroses e carências. E mais: de não sucumbir ao tédio de uma vida menos digna do que achava que merecia ter. Eu tinha começado a ganhar consciência de todas as coisas que eu merecia e isso vale bem mais do que qualquer open bar, afinal, não dá ressaca. Nem a moral. 
Se fosse pra dar em uma frase, diria que resolvi dar valor a essa coisa linda e louca que é o cuidado. Na época, pensei até em mandar fazer uma placa para colocar na entrada do apartamento. Fundo azul, letra branca, caixa-alta: CUIDADO. Achei que seria um pouco de poesia na minha vida. Me dei um tempo, suspendi assuntos dos quais não queria tratar. Aceitei esse desafio de ser o que eu precisava naquele momento: uma mulher que só crê mesmo na astrologia. Ficou comigo só o que eu queria que ficasse. Tinha dias que nem eu mesma me suportava, isso fica entre a gente. Tudo foi indo bem depressa. Comprei um vinho pensando em sentar antes que acabe o outono e te contar com menos euforia e mais detalhes.

Escrevo porque achei que não capaz de me comover com mais nada. E estava errada. Aconteceu. Imenso. Inteiro.

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