NITERÓI/RJ
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O que nos diz o estandarte da desigualdade?

É manhã. Acabo de filmar “Borderline”, filme de Gisele Amaral, aqui em Brasília. Minha personagem chama-se Consolação, uma professora universitária da UNB, do curso de Psicologia, e que também é orientadora. Resolvemos que o cabelo dela deveria ser rastafári. Deveria ter dreadlocks. Há professores universitários com cabelos trançados? Há professores negros universitários? Há. Mas quando um produtor de elenco vê tal categoria, em geral, não enxerga um ator negro para este papel. Então, pensei que seria político, seria uma força no parlamentarismo do corpo dessa personagem, como diz a professora Ivana Bentes, a fim de desconstruir a imagem branca como única representatividade dos meios acadêmicos. No meu caso, o papel fora escrito para mim, e a diretora já dizia adorar o meu cabelo crespo, o modelo que ele é antes da ideia de fazê-lo rastafári. Ainda assim resolvemos radicalizar. Venho pensando nisso esses dias, do quanto nós falamos calados, no quanto nossos corpos discursam. Às vezes, olho uma mulher de cabelo alisado, mas, de alguma maneira, aquilo está orgânico nela, parece uma moda e não um problema com a identidade. Mas em muitas vejo desconforto, a tentativa desesperada de acabar com aquele crespo que desponta teimosamente da raiz, como se ele fosse um negro delator. Já vi muito sarará querendo esconder que um negro, seu avô, ou vó, seu parente, responsável por sua existência no mundo, um dia passou por ali. Por isso, os corpos são parlamentares e trazem linguagens que muitas palavras não são capazes de desdizer. 

Vinha eu puxando minha malinha entre uma viagem e outra; entre Porto Alegre, São Paulo, Rio; entre teatro, novelas, palestras, cursos, cinema e literatura, ia eu com a minha malinha nessa minha vida linda e dura, quando paro para esperar o elevador no 10º andar do meu hotel, num bom hotel desse Distrito Federal. Um corpo parlamentar me olha de cima abaixo. É branco, tem aquele tom com o qual os litorâneos costumam estereotipar os paulistas, sugerindo sucessivas camadas de escritório sobre a pele, uma certa desistência no jeito de segurar a pasta, no jeito uniformizado de se vestir. Um jovem velho, no máximo 40 anos, talvez um pai de família. A mulher é branca também, imagino, as crianças são; a sua calvície que, em muitos homens de sua idade e tipo poderia cair como um charme, nele parecia nitidamente uma derrota. Aquele corpo falava tudo isso pra mim, antes de abrir a boca. Foi então que, por trás dos seríssimos óculos, comentou: “Eles agora perderam a vergonha totalmente, né? Que mundo é esse?” Ao que eu respondi, indagando, espantadíssima: “Soltaram? Quem?” O Picciani, de novo?!” “Não, não sei, eu tô falando de homem com homem, mulher com mulher, agora mesmo desceu um casal de sapatas no elevador, eu nem fui. Uma mulher com outra mulher, que coisa mais esquisita, e de mãos dadas, maior descaramento, estão respeitando mais ninguém não”. “Ah, o senhor está falando de amor entre pessoas... que susto, pensei que tivessem soltado de novo aquele cara. O senhor desculpe, mas gente que rouba merenda, que rouba o dinheiro da saúde, da educação de um povo? Que crime bárbaro! Mata muita gente. O senhor desculpe, mas é que agora estou morrendo de medo de branco, sabe? Lá no Rio de Janeiro, uma quadrilha só de brancos está roubando há muito tempo, são reincidentes, organizados, não apresentam arrependimentos e nem falam em parar. Tem outra em Brasília, tudo se escondendo atrás do muro dessa vantagem do foro privilegiado e, tem mais, dos 200 indiciados da Lava Jato, não tem nenhum preto. Eu tô apavorada!”.

Augusto Boal, grande pensador do nosso teatro contemporâneo, falava que devíamos agir assim, dentro de seu conceito do Teatro Invisível. Faz parte da teoria do Teatro do Oprimido. Ele nos convoca a “atuar” provocando cenas dentro do cotidiano, a título de produzir uma reflexão, uma reação ou algum pensamento por uma via nova. Depois, fiquei pensando no homem, em porque lhe teria faltado palavras para dialogar comigo naquela via expressa de expressão onde ele não tinha intimidade. Era-lhe inédita. Sua circulação como homem branco de negócios é uma espécie de green card que não o deixa ser barrado nunca. Para ele, naquele momento, estupefato pela experiência, era como andar no escuro, andar sem se poder ver com nitidez onde pisa. Era caminho novo. Segui segura de que a experiência, por tê-lo feito se sentir desconfortável, já pode ser por si uma experiência válida.

Mas o tipo de exercício teatral improvisado ali naquele hotel com aquele homem, um desconhecido meu, propõe que se inaugure ali no seu sentimento essa sensação de ser olhado com desconfiança, com descrédito, com indignidade. De sentir o olhar de desprezo, de subumanidade, o olhar que se oferece aos desonestos, aos bandidos, aos ladrões, aos que parecem oferecer perigo, só por serem pretos. O moço foi embora sendo olhado como uma ameaça pela primeira vez, talvez. Experimentou ser, por alguns segundos, a minoria maioria que somos. Os pretos desse País, inclusive os ditos bem-sucedidos, como essa que vos fala. Pronto, agora minha brincadeira já está armada. Tenho em mãos um bom teatro de provocação. Mas não para guerra, para a reflexão e mudança de atitude. 

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