NITERÓI/RJ
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Onde estará o meu amor

Mesmo quando você não vem. Sobretudo quando você não vem. Eu continuo acendendo o meu cigarro. Me debruço – quase inutilmente – na função de ter algumas coisas nas mãos. Acendo com a esperança de o tempo passar. Eu vejo a cinza se formando, vejo a luzinha amarela acender e apagar. Um trago após o outro. Nosso ritual. Canto baixinho Mateus Aleluia, como se fosse alguma salvação, redenção: “o amor há de renascer das cinzas”. Que se façam, então, as cinzas. De um jeito ou de outro. Me pergunto se te espero ou se me acalmo. Me pergunto se esperar é ter esperança. Me pergunto também se esperança alguém vende ou se a gente só é obrigado a ter, mesmo sem saber onde conseguir.

Em uma das alucinações ou epifanias, ainda com o cigarro nas mãos, o trocar de mão como quem oferece a alguém. Mas não há ninguém. Aguardo a porta abrir, mesmo sabendo que você não vai chegar. Olho atenta. Coração na mão. Eu reclamo baixinho, maldigo o teu nome. Clamo, no tédio do dia, para que alguma coisa me vire do avesso assim como você fez. Rogo aos deuses todos, para que na vastidão dessa luz eu encontre algum feixe que me faça movimentar. Para qualquer lugar. Algum impulso firme que me tire dessa casa, desse quadro, desse quadrado luminoso, mórbido e belo, porque me traz você. Em todos os cantos há você.

Me sento de frente, como se quisesse te esperar mais à vontade, como se fosse te seduzir ou como se precisasse de alguma pose para alimentar algum ócio. Poso como se você estivesse. A luz quase cai, mas foi nuvem passageira. Surgiu algum alívio. Comemoro sem movimentos bruscos. Mas comemoro porque no breu não me suporto. Tento estar serena, mas crio histórias, escândalos, gritos, copos e garrafas no chão. Como se fosse do meu feitio tirar algo do eixo, nunca foi. Desfaço desta ideia torpe de ser algo que não sou… dá trabalho. Me preocupo só em encontrar alguma paz, caso você chegue de surpresa. Me preocupo só em encontrar alguma paz, sobretudo se você não for chegar. 

Ouço tudo em volta: o chiado da TV, a conversa da casa do lado. Quando a noite vai vir? A fumaça me faz rir, quase desespero. O cigarro não acaba. Agradeço. É o último? Não vou ver. Tudo ainda é morno, turvo. Não sei se é noite ou faz calor, também cantarolo baixinho. Eu me sento para beber. Nenhuma bebida me embriaga. Está cada dia mais difícil perder a consciência ou esquecer o inconsciente. Eu sigo fingindo que está tudo bem. Cara boa, coração tranquilo, sorriso que enlaça, como se quisesse conquistar. É a ordem do dia: a embaraçosa falta do que fazer. A embaraçosa falta do que fazer se não há você.  Isso tudo aqui não faz o menor sentido. Olhe os cantinhos. Nada faz sentido sem você. 

Eu me concentro. Reclamo que amor não é só euforia. Declamo poemas, como se precisasse lembrar de onde vem o amor e para onde ele vai depois que acaba. Eu tento me recordar que o amor é o que é. Olho em torno e penso: foi o que tinha que ser. Mas eu juro, e eu não sou de jurar, que alguma coisa ainda me faz esperar. Acho que é quando me lembro dos nossos vícios. Alimentei, já disse, um terrível vício da sua presença. O pior de todos. O cigarro já apagou, a bebida já acabou, você também ainda não veio. E eu espero. Sem cansar, eu espero. Espero por você e pela nossa paz. Pelo dia em que as coisas vão andar tão bem que o coração vai bater no peito e não nas mãos. 

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