NITERÓI/RJ
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Pelos muros do mundo

Thiago tem cerca de 12 painéis de grafite somente em Niterói

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Nascido e criado em Niterói, há oito anos, Thiago Thipan, de 32 anos, mora em Florianópolis. Ele saiu de Niterói, mas sua arte não! Na sua conta, são cerca de 12 painéis de grafite somente em sua cidade natal. Além disso, o artista tem painéis e muros pintados na cidade do Rio de Janeiro, São Paulo, e até na França e no Canadá. Atualmente, percorre o País com oficinas para crianças e adolescentes para mostrar que a arte ajuda na conservação do patrimônio e fortalece a identidade do local.

Sabemos que a arte do grafite se expandiu muito por niterói no fim dos anos 90 e nos anos 2000. Como e por que você se interessou por essa arte?

Inspirado pelo meu irmão, Diogo, que é arquiteto, comecei a criar estêncils e pintar superfícies diversas, entre tecidos e paredes. A criação sempre foi um assunto presente na minha vida e, desde pequeno, me interesso por trabalhos manuais de arte, entre esculturas com argila e desenhos de personagens de quadrinhos. Quando o assunto é arte de rua, me admira o fato de que através de uma pintura bem planejada, com esmero estético, é possível transformar espaços físicos, a cidade e a vida das pessoas com mensagens para reflexão, palavras positivas, símbolos, cores e abstrações poéticas, o que, por sua vez, enriquece a cultura, o imaginário local e estimula a criatividade. Essa é a minha principal motivação quando saio de casa para pintar na rua. Meu propósito é beneficiar a comunidade da qual faço parte. 

A sua família sempre te apoiou nesse meio?

Quando decidi seguir pelo caminho profissional das artes, após me formar na faculdade e trabalhar em diversas empresas de comunicação, convidei meus pais para uma conversa sobre o assunto. O apoio da família traz segurança e fortalece a confiança, sendo, portanto, um fator importante para se obter sucesso em qualquer carreira profissional artística. Como em toda área do saber e do trabalho, a determinação, a disciplina e o estudo prático diário são o que realmente faz a diferença. Todos temos sonhos de vida e, para realizar, é preciso acreditar, desenvolver um forte sentido de fé interna, combater dúvidas e, dia após dia, pavimentar o caminho com trabalho.

O artista tem painéis e muros pintados na cidade do Rio, São Paulo, e até na França e no Canadá

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Assim como cada música para o cantor e cada personagem para um ator, cada obra sua é como um filho. Mas tem alguma especial?

Toda obra é especial pois marca um momento da vida, uma fase do artista. Mas, sem dúvidas, existem obras que são mais marcantes por serem a primeira de uma nova série de pinturas, por exemplo. Em Niterói, criei no início desse ano um mural chamado “Encantos da Floresta”, que se tornou ainda mais especial pois teve a participação da minha mãe, Vera, e do meu pai Moisés. Gosto de incluí-las no processo criativo, pois, além da obra, ganhamos a experiência que fica de alguma maneira eternizada em nossa passagem pela vida.

Como foi voltar à sua cidade natal e colocar seu nome em um dos muros?

Sou nascido e criado em Niterói e me orgulho disso, pois, além das belezas naturais da cidade, nosso povo é acolhedor, com um senso de humor sem igual. Na maioria das vezes sorridente e alegre, apesar das dificuldades e desequilíbrios sociais causados por políticos sem consciência coletiva. Em todas as cidades do Brasil, boa parte desses governantes precisa se autoavaliar e trabalhar pelos interesses do povo, direcionar recursos públicos a favor do bem-estar e do desenvolvimento social. Sempre que vou a Niterói visitar minha família, saio para pintar na rua de maneira independente e, quando sou convidado a pintar, nada mais natural do que cobrar pelo planejamento, tempo de trabalho, execução e materiais. Recentemente, participei de um projeto de arte de rua da Prefeitura de Niterói através de um edital público e me sinto feliz em contribuir para a cultura local.  
 
Quais são os maiores desafios para quem faz essa arte? Existe preconceito?

Estamos falando aqui de grafite que, por definição, é um trabalho com esmero estético visual feito na parede. Dentro desse universo, existem diferentes estilos e propósitos, uns mais aceitos, outros nem tanto, pois alguns acabam por prejudicar o patrimônio público e privado. O preconceito acontece quando quem julga o que vê não sabe diferenciar, classifica tudo da mesma maneira. Quem se dedica de maneira profissional a fazer arte e beneficiar o espaço publico é desafiado por pessoas que querem contratar para trabalhos e, muitas vezes, não querem pagar. Vivemos em uma sociedade capitalista e, infelizmente, precisamos de dinheiro para pagar contas e viver com conforto. Em alguns casos, até empresas grandes têm dificuldade de valorizar e reconhecer o trabalho do artista oferecendo um cachê adequado. Quem quer viver da arte precisa saber negociar e valorizar o próprio trabalho.

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