NITERÓI/RJ
Min:   Max:

Poder do mínimo

Nas artes, o minimalismo expressou-se através de formas geométricas simples, puras, simétricas e repetitivas.

Divulgação / Manga Rosa Arquitetura

Quem ainda não leu o livro “A mágica da arrumação” pelo menos já deve ter ouvido falar da autora Marie Kondo, que virou uma espécie de guru desde que sua publicação foi lançada e que, até o ano passado, já tinha vendido mais de 5 milhões de exemplares em todo mundo. A japonesa, especialista em arrumação de ambientes, desenvolveu um método autoral, segundo ela infalível, de organizar a vida e dar fim à bagunça. Com essa técnica, acabou se tornando a mais nova cultuada por aqueles que buscam reduzir e organizar como forma de empoderamento: os chamados minimalistas. Pessoas que, acima de tudo, acrescentam uma profunda reflexão sobre o consumo e o espaço que cada coisa ocupa. Segundo os adeptos, em um mundo repleto de estímulos por compras, há algo de calmo, esclarecedor e tranquilizante quando se opta por viver sem muito. E vão além, afirmando que, além de economizar dinheiro, essa é uma atitude que também pode trazer serenidade e espiritualidade à vida.

O minimalismo surgiu como movimento estético e cultural na década de 60 nos Estados Unidos. Nas artes, expressou-se através de formas geométricas simples, puras, simétricas e repetitivas. Também se refletiu em uma filosofia ou estilo de vida que propõe dedicação àquilo que realmente importa, descartando o supérfluo como meio para alcançar uma espécie de plenitude. Um pensamento que chega aos dias de hoje como uma espécie de resposta a décadas de consumo desenfreado e insustentável e ganha projeção principalmente através das novas mídias, ainda livres da tradicional lógica do mercado.

A febre em torno da organização e do minimalismo pode ser facilmente percebida. Os assuntos são pautas constantes em sites, blogues e canais de moda, comportamento e estilo, e novas páginas sobre os temas surgem a cada dia. Alguns são radicais na proposta de redução, enquanto outros são mais realistas, descobrindo e adaptando esse pensamento à vida contemporânea, como Elisa Langsch, que já soma mais de 30 mil seguidores em sua jornada para minimizar e arrumar a própria vida.

“Muitas pessoas estão cansadas de consumir em excesso e buscam um estilo de vida mais simples. Recebo muitos comentários de pessoas que se mudaram para um apartamento pequeno e querem aproveitar para aprender a viver com menos e se organizar. Mas esse pode ser um caminho solitário, pois nem sempre temos amigos ou familiares com o mesmo interesse. A internet é, portanto, a melhor aliada, viabilizando formas de se aprender técnicas e conversar com outros interessados no assunto”, explica Langsch, criadora do site e do canal “Lar Possível”.

A rotina fica mais leve quando você tem o controle do que existe em sua casa, explica Elisa, que trocou o hábito de passear no shopping por caminhadas em parques.

Em sua jornada para minimizar e arrumar a própria vida, Elisa Langsch já acumula cerca de 30 mil seguidores no canal “Lar Possível”

Foto: Divulgação

“O processo de redução me trouxe tranquilidade. Achava que o impacto seria só um guarda-roupa organizado, mas logo entendi que a principal vantagem estava na mudança de estilo. Trabalho e cuido da casa, por isso busco maneiras de facilitar meu dia a dia. Assim, reduzi em mais da metade tudo o que tinha: roupas, sapatos, acessórios e todo tipo de “tralha” que não tinha mais utilidade. Planejei uma casa com poucos móveis e objetos para gastar menos tempo na limpeza. Mas sei que ainda posso reduzir muito mais. É um processo, sempre terá algo novo”, ressalta.

Segmento extremamente cíclico e por isso com maior apelo ao consumismo, talvez seja na moda que o minimalismo represente o maior desafio para seus adeptos. Mas atenção: o estilo de vida minimalista não deve ser confundido com o estilo de moda minimalista, que, nos anos 90, chegou a Nova Iorque pelas mãos dos estilistas Calvin Klein e Donna Karan, no momento em que as mulheres precisavam de algo semelhante ao terno e gravata. Ali, se popularizaram peças como o tubinho e o terninho seco, entre outros vários desdobramentos criativos, com a filosofia do “mínimo que é o máximo”, explica Evelyn Bonorino, consultora de imagem pessoal.

“Consumir menos é diferente do modismo minimalista, no qual tivemos que consumir até muito para sair da “poluição” em que o new wave dos anos 80 tinha nos colocado. Entendo esse minimalismo de agora como recomeço no modo de se vestir, pois fomos ao topo do consumo desnecessário e desenfreado, lutando para nos diferenciar-mos do coleguinha, e acabamos, 17 anos depois do início desse século, todos iguais e arrependidos”, avalia Evelyn, que acredita que o guarda-roupa de uma pessoa estilosa não precisa ser lotado, mas, sim, harmônico e multiplicador.
“A limpeza que estamos fazendo agora é baseada na diminuição da compra de produtos semelhantes ao que já temos. Isso vai mexer com outras equações no modo de se vestir. Ao comprar menos, o consumidor vai exercitar muito mais a criatividade”, prevê a especialista.
Apesar de a busca de benefícios através da redução e organização parecer uma novidade, essa, na verdade, é uma premissa de sabedorias milenares. Para o budismo, por exemplo, a dedicação à organização e à limpeza conduz ao aperfeiçoamento espiritual. O valor de tudo é proporcional à sua utilidade. 

Outra vertente mística oriental, o Feng Shui, prática chinesa com mais de 5 mil anos, tem como objetivo organizar espaços para atrair influências benéficas da natureza. Por isso, para essa crença, acumular significa impedir que a abundância entre na vida, como explica a mestre em Ciências da Saúde e especialista em Feng Shui Lou Fernandes.
“Como tratamento, indico às pessoas caminharem por suas casas e, ao mesmo tempo, separarem três cestos ou caixas com etiquetas de ‘eu quero ou preciso’, ‘não preciso nem quero’ e ‘vou pensar’, observando tudo que lhes trazem boas lembranças ou lhes causam mal-estar. É um passeio que fará a pessoa se apropriar de seu espaço e entender o que é essencial”, ensina Lou.

O minimalismo também é uma importante expressão da arquitetura do século XX, baseado nas linhas retas, nas formas geométricas simples, em ambientes com poucos objetos, cores neutras e layout funcional. Incessante na busca pelo econômico e simplificado. As pessoas que buscam esse estilo geralmente procuram lidar com o consumo de uma forma mais consciente, revela a arquiteta Livia Ornelas.

“A vantagem de um projeto com essa pegada é economizar com os gastos supérfluos na hora de comprar os materiais e mobiliários, já que o que vale é viver de forma simples, sem excessos. A dificuldade é deixar o ambiente acolhedor. Para isso, o uso de madeira, tecidos, plantas e uma boa iluminação indireta são boas saídas”, ensina.


O minimalismo é ausência de móveis, cor e formas sinuosas. Tudo é reto, limpo e objetivo. Algo muito forte na cultura japonesa, onde as pessoas têm pouco espaço e precisam otimizar esse aproveitamento, completa a arquiteta Marcela Oliveira.

“Mas o que agora virou moda é um estilo de vida que as pessoas querem adotar como forma de não serem invadidas pelos excessos. Uma maneira de se livrar do acúmulo para se concentrar no que é importante e, assim, encontrar liberdade e realização pessoal”, explica Oliveira.

A escassez de recursos naturais é uma preocupação que vem fazendo muitas pessoas repensarem seus hábitos, trocando velhas práticas pelo que pode ser considerado sustentável, ou seja, que não compromete o futuro do meio ambiente. Por isso também, o minimalismo é uma prática que cresce em alguns países do primeiro mundo, complementa Bruna Eckhardt, sócia de Marcela.

O minimalismo também está na moda, priorizando produtos duradouros, simples e de qualidade

Foto: Divulgação

“O europeu, que tem uma cultura mais humanista, já é bem menos consumidor do que a gente e do que os Estados Unidos. Estão muito mais em busca de satisfação na vida, de algo muito mais pessoal, o que se reflete em espaços mais funcionais, mais confortáveis e com menos coisas e mais sentimentos”, destaca. 

A vida corrida e acelerada muitas vezes faz com que as pessoas não tenham tempo de cuidar de seus próprios espaços e essa desorganização passa a ser motivo de estresse, que lhes rouba a qualidade de vida. Para atender a essa demanda, a figura do personal organizer surge como um agente facilitador, que trabalha arrumando os ambientes do cliente, selecionando o que é útil e necessário para o dia a dia dele.

“A profissão surgiu nos Estados Unidos há uns 30 anos e, no Brasil, há pouco mais de 15. As solicitações são principalmente por organização de closets, armários, cozinhas e despensas. Todos são clientes em potencial, mas esse ainda é um serviço visto como caro e de luxo”, avalia a personal organizer Milliane Azevedo.

Além de encontrar o melhor lugar de cada coisa, o profissional também orienta as pessoas a estabelecerem prioridades, cultivando, assim, uma vida prática.

“No caso das empresas, os documentos, pastas, arquivos, contas, extratos, enfim, tudo necessita ser organizado e administrado corretamente para facilitar a procura da informação quando for necessária. A perda de tempo gera improdutividade”, explica.

No ano 2000, o minimalismo comportamental ganha força e novos expoentes, como o autor e criador do site Zen Habits, Leo Babauta, autor da metodologia “Zen to Done” (ZTD), de produtividade. Por aqui, o assunto já acumula alguns sucessos nacionais, como o livro “Vida Organizada”, da criadora do blog de mesmo nome, Thais Godinho.

Sem teorias, a organização e o minimalismo entraram na vida do músico Silvério Pontes, de 56 anos, como uma consequência de sua experiência de vida.

“Sou virginiano, organizado por natureza. Mas só exagero na minha vida musical, onde sou extremamente metódico. Acredito que, se formos organizados na vida profissional, sobra mais tempo para o lazer e para ser feliz”, revela Pontes, que acredita que o minimalismo acabou sendo uma consequência natural da sua personalidade organizada. “Muitos músicos colecionam instrumentos, mas eu não. Quando ganho um, fico mais feliz doando para alguma escola ou projeto. As coisas têm que ser usadas, tudo precisa estar em atividade. Qual o valor de um piano, por mais caro que ele seja, se ninguém toca? Tive um câncer, fiz um tratamento muito sério e, hoje, sou grato simplesmente por acordar”, conclui o músico. 

Scroll To Top