NITERÓI/RJ
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Feito aço

Rio de Janeiro, 17 de julho de 2018.

Destino a você meus versos mais bonitos. Destino a você algum afeto que aplaque os danos todos, que junte os pedacinhos, que afaste essa nuvem espessa da desordem em que nos colocaram - social, emocional. Eu quero que você se saiba amada, por mim ou por outra, a ponto de balançar a estrutura que hoje é posta, a ponto de dissolver a dureza implacável dos corações que já foram partidos, a ponto de furar todas as bolhas. Quero que nosso afeto chegue a quem precise ainda entender que é possível amar e ser amada, que é possível sermos duas aqui, entre a gente, mas sermos muitas. Foi aqui, no amor, que aprendi a ser exatamente o que quero ser. Sem remorso, sem culpa. E eu desejo aos montes, a você e a quem mais nos vir, um encontro com esse lugar - do amor.

Me perguntaram porque eu insisto tanto em escrever sobre o amor, como se isso fosse me livrar do contrário -  e sabemos que não livra. Mas eu ainda faço. Eu escrevo cartas de amor porque é a única forma que encontrei de dizer a mim e ao mundo que é possível não viver só. Que é possível não sucumbir ao que fomos logo cedo predestinadas, que é possível se lembrar onde nascem e moram nossos afetos, sejam densos ou não. Eu escrevo sobre amor porque você me ensinou que amar como nós amamos, amar do jeito que escolhemos amar, é resistir. Fortes feito aço, feito lâmina de uma espada que corta e recorta com precisão. O amor entre mulheres é nos sabermos como nenhum outro nos saberia.

Escrevo sobre o amor, como uma emissária sem credenciais, uma mensageira desautorizada. Mas eu escrevo e, muito mais do que escrevo, eu amo. Eu amo sem autorização, eu amo sem assinar contratos, embora pudesse assinar se assim decidíssemos. Eu amo de um jeito muito mais generoso do que me foi apresentado como verdade há um tempo atrás. Com peito aberto, coração em brasa, cuidado, autopreservação, frio na barriga. Eu amo com desejo consciente e com tesão. Amo com bom senso e respeito. E, como ouvi um dia desses, eu amo de um jeito que só uma mulher alcançaria. Só uma mulher alcança.

Daqui do lugar onde eu estou, posso te dizer que amar e falar sobre esse amor é a única forma de permanecer viva. Do lugar onde eu estou, só consigo acreditar que é através desse movimento preciso - apesar de inconcluso - que consigo ser forte. Que consigo ser fraca. Que consigo sorrir ou, então, gargalhar. Daqui eu consigo chorar, por que não? Como não? Daqui, com você, eu consigo ser exatamente o que eu quero ser. Daqui, com você, eu encorajo todas as outras, que, assim como nós, têm sede de amar e ser amada. Da forma que bem entender. Estamos entendidas.

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