NITERÓI/RJ
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ENCHI (parte 2)

E nós, aonde vamos? É estarrecedor! Desperto com uma notícia sobre o motel “inspirado” na escravidão chamado Senzala. Já conhecia o assunto, há dois anos, me parece, ele rolou nas redes. O local oferece correntes, mordaças, chibatas em encenações dos tempos desse secular método de tortura que mantém a purgante ferida debaixo de uma hipocrisia histórica. Ferida e desoxigenação, mistura letal. A cultura brasileira, além de órfã dos fundamentos de princípio coletivista que os povos indígenas e negros têm para nos ensinar, é também uma empobrecida zona de autoconhecimento nosso. Onde mora exatamente a alma do brasileiro? Não sabemos direito quem somos. A independência da nossa pátria foi pedida por um português. Os sanguinários bandeirantes, açougueiros da vida humana, seguem com seus nomes ostentando placas de rua, como vultos históricos desde quando eu era pequena e adesivo se chamava decalque. Fiz trabalhinho de escola homenageando esses caras, sem saber que eles mataram minha gente. Sim, os bandeirantes eram um grupo filho da puta (até me arrependo de ter escrito essa palavra, porque respeito muito as putas). O grave é que crescemos admirando a Princesa Isabel, a redentora. Como assim? Essa mulher, essa moça, estava por acaso na regência, por ocasião de viagem do seu pai, Dom Pedro II, e por isso, como estava naquele lugar, naquele momento, assinou sem remédio o inevitável resultado de uma parada diferente, de uma revolução da qual ela não participou. A jovem senhora Bebel estava alheia às radicais posições abolicionistas. Não era sua causa, não consta que estivesse presente em qualquer reunião. Já houve insinuações, na grande varanda da fofoca da história, de que ela só teria assinado  porque atrás dela havia um negão pressionando; com carinho, vale dizer. Mas nem nisso acredito. Não sei se Bebel tinha cara de dar voltinha em senzala. O que eu sei é que ela levou os “louros” também desse enredo, cujo protagonismo, que estava nas mãos de José Bonifácio (abolicionista da época da libertação), e esses caras (serão incluídos outros), com a discreta e oculta ajuda de guerreiras negras, que levavam notícias secretas veladas para as cenas de amor das camas subversivas fazendo a comunicação entre o quilombo e os porões do império. Estava acontecendo uma revolução. Insurgência negra. Ao mesmo tempo, o Brasil pagava o mico de ser o último que ainda insistia em ter o regime escravocrata. Desalinhava-se da modernidade daquela época e o mundo estava nitidamente entrando numa nova era, num novo quadro de entendimento diante dos embates internacionais e novas formas econômicas de lucrar com a exploração do trabalho.  Obsoleto nesse modelo, o Brasil agonizava no painel internacional nesse quesito, é verdade. Porém, é igualmente verdade que o bicho estava pegando nas senzalas. André Rebouças, José do Patrocínio, foram nomes abolicionistas que libertaram mais de 500 escravos cada um, contando com o império de Palmares, a nação revolucionária que abrigava e recebia escravizados escapados das senzalas, fundando ali um reino de dignidade, vida de agricultura coletiva e treinamentos para a luta. Palmares fazia pressão, sofreu duros ataques, mas foi por um século o temor dos senhores de engenho com suas estratégias originais de guerra e resgate dos prisioneiros. Toda essa história, meus amigos, da qual se vê nesta minha escrita apenas a ponta do iceberg, mereceu da nossa vida escolar, até agora, frágeis páginas de simplória redução. A versão contada, oficialmente, elide e desconsidera a força da luta do povo negro e esvazia de gravidade a duradoura escrotidão do escabroso regime. O resultado é o que vemos: restaurantes chamados senzalas, motéis brincando com esse nome?! Senzala, palco de estupros, cárcere sangrento. O laboratório de abuso e violência contumazes contra a dignidade humana. Quando olhamos no nosso espelho não vemos essa nossa dor; sabemos mais do diário de Anne Frank e com ele nos comovemos. Não consideramos holocausto os quatro séculos de escravização do povo negro e, sim, os seis anos da tentativa de extermínio do povo judeu, porém, pouco nos comove o extermínio diário da juventude negra brasileira. A escravidão normatizou o merdeiro, normatizou a desvalia em relação a um homem e à mulher negra. E as sombras da sinhazinha e do sinhozinho deixaram em todos péssima herança. Se sou hoje ainda uma abolicionista é porque ainda estão em vigor os modos dos senhores de engenho. Se não, como explicar a necessidade dessa crônica, sua vigência? Não defendemos nosso povo dessa barbárie até hoje. Muitos pensadores modernos de agora ainda não se debruçaram sobre o tema como se esse fosse alheio aos seus interesses, como um tema estrangeiro à sua realidade. Mas, se alguém abrir um restaurante chamado Auschwitz talvez esse que não se importa com extermínio até hoje do povo negro seja o primeiro a gritar que um restaurante com  um nome do campo de concentração seja um desrespeito a todo povo judeu. E é. Com o povo negro pode? Tudo pode? 
Escrevo na ânsia, quase utópica, de convocar abolicionistas contemporâneos que queiram fazer faxina numa história torta que até hoje humilha o povo que a construiu. Esse nosso conservadorismo, aprendido na escravatura e no extermínio dos índios, é o mais perigoso dos males. Que tal começar comendo com sua empregada na mesma mesa? Pra quem nunca viveu, será uma experiência sociológica emocionante, porque, ao comer e ao descomer, somos realmente iguais em texturas, odores, consistências e outros detalhes que rondam a dignidade humana. 

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