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Por que Gastronomia?

Igor Maurício Barreto é cozinheiro, restauranteur, consultor, palestrante e viciado em gente

Foto: Reprodução

Pode ser o final do ano, a proximidade com o verão, as férias... Não sei, mas percebi que mais pessoas têm me perguntado: porque escolheu trabalhar com gastronomia? Foi um chamado divino? Uma coisa de talento nato? Foi o glamour?

Bem, para alguns, esclareço logo sobre o tal do glamour. NÃO EXISTE. É um fato. Não pode ser glamoroso trabalhar em pé, em jornadas de 10 a 14 horas, num calor de mais de 40º. 

O chamado divino vem. Em forma de pudim, risoto e carne. Cada um estabelece sua conexão com as energias superiores através do regozijo e o prazer que uma comida que emociona te traz. Esse chamado pode te tornar interessado ou gordo, ou ainda, os dois!

Quanto ao talento nato, na minha opinião, ele não existe. Sim, existe aquela identificação pela comida, e o que ela provoca em cada um de nós. Aquela vontade de fazer que aquilo te traga uma forma de expressão. Esse sentimento acende uma fagulha, se houver combustível dentro de você, ele acende a chama. Não há idade certa pra isso. Novo, velho, em qualquer momento isso pode acontecer. Ainda assim, posso ser um cozinheiro amador feliz. 

O grande fator em tudo isso é o entendimento do que representa ser gastrônomo. 

A comida é um grande condutor, maior e mais poderoso do que normalmente consideramos a priori:

É um condutor social e antropológico. A história da humanidade se confunde com a evolução da alimentação humana. A evolução humana girou em torno de nossa capacidade de comer melhor. Nos agrupamos para sermos mais fortes e dividir mais comida. O cultivo da agricultura nos fez criar raízes, cidades, sociedades e países.

É um condutor cultural. A cultura enquanto alimento e o alimento enquanto cultura. Existem esforços científicos no sentido de entender o quanto a comida influencia o nosso comportamento e quanto o nosso comportamento influencia a comida. É um dilema que não asseguro ter fim, mas apaixonante de ser desvendado.

É um forte condutor evolucionário. O que se come é um importante estratificador social, um aglutinador de grupos com pensamentos parecidos que acabam se organizando pela comida e propulsionando novos pensamentos e comportamentos.

É um forte elemento político. Para nações, para sociedades, para políticas públicas e para as melhorias coletivas. 
O alimento e a comida são memória. Nos remetem a nossas memórias afetivas, nos ajudam a ser quem somos e o que podemos nos tornar. 

Não somente por ser elemento fundamental para a existência enquanto humanos, a comida compõe uma parte fundamental do que somos, quase em silêncio, sussurrando nosso destino a cada garfada.

Escolher como profissão acontece como em todas as outras. É preciso planejamento, obstinação e estudo. Procurar sempre se ater a uma filosofia e pensar seu trabalho sempre, como um fio condutor. 

Ser gastrônomo e trabalhar com comida e hospitalidade é uma responsabilidade. As pessoas confiam em você para lhes proporcionar momentos de alívio do dia a dia, momentos de diversão e fora do cotidiano. 

É acima de tudo, amar. Amar o que faz, o ingrediente, a comida. O Amor é o tempero que é necessário em tudo. 

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