NITERÓI/RJ
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A princesa real

Incomoda-me profundamente que nós, mulheres, seres que têm em sua história muitas injustiças, longos períodos de escravidão e opressão em várias partes do mundo, ainda preservemos prisões, mesmo dentro da pretensa liberdade alcançada. Explico: se hoje atingimos o status de tomar decisões, de nos profissionalizar em qualquer área, de gerir nossa vida afetiva, financeira e reprodutora, por que continuamos reféns dos estereótipos da beleza, por exemplo; reféns das escovas, das chapinhas, da louro como visual oficial da beldade, reféns das futilidades dondocais? 

Entre as ilusões que consumimos, há aquelas que fazem com que acreditemos que uma mulher chique deve ter um maquiador, um estilista, um cabeleireiro, um decorador, e muitas vezes alguém que diga pra ela o que é chique pensar. Isso tudo é uma bobagem! Não estou desprezando esses profissionais que citei, mas sou capaz de me pentear, maquiar e vestir, decorar a minha casa e, mesmo que eu queira ter ajuda desses profissionais, é ilusão dizer que sem eles eu não saiba me virar. Quando a reflexão está com o foco só na vitrine feminina, no que vai por fora dela, na loucura de querer estar sempre jovem e para isso não medir esforços para mexer na sua estética de forma a quase ficar irreconhecível no pior sentido, o assunto ainda não é tão grave. 

Preocupante mesmo é perceber que as mulheres cresceram como cidadãs, mas continuam voltadas para procurar um marido rico e, quando o encontram, muitas vezes esquecem rapidamente as agressões físicas que eventualmente possam ter recebido de seus parceiros, quando estes lhes dão viagens e joias para que as feridas logo cicatrizem. Ora, essa mulher atual que está começando sua vida sexual mais cedo do que antigamente não só continua a gastar fortunas para casar de branco como se fosse uma virgem, e a depender do marido como se ela ainda não trabalhasse ou não pudesse fazê-lo. 

Fui no Congresso Nacional a convite de deputadas e senadoras para falar sobre a violência contra a mulher. Foi lá que eu disse, pela primeira vez, o que estou escrevendo aqui agora: o agressor desdentado e a mulher pobre é que aparecem nesses crimes nos jornais, mas a violência contra a mulher visita todas as classes e as mais ricas raramente denunciam. Por quê? Será o dinheiro, o conforto, a casa em Miami, os cartões de crédito ilimitados que promovem esse silêncio? Sempre me ofende quando vejo um homem querendo me conquistar ou conquistar uma mulher ostentando os seus bens. Ora, uma mulher que topa tudo por dinheiro? Não seria esta a lógica de quem está vendendo o corpo? Então, o que vemos é uma sociedade de mulheres que casam na igreja depois de acharem o seu homem rico que as sustente, e condenam as prostitutas que cobram pelo sexo. Perdoem-me as casadas desse tipo, mas considero as prostitutas mais autênticas e mais honestas neste tema. Respeito-as. 

Minhas queridas, sejamos mulheres do nosso tempo. Quem alcançou a liberdade de estudar, trabalhar e decidir seu destino, não deve mais aceitar o papel de uma frágil dependente princesa. Temos que escolher um modo de viver à altura dessa liberdade, afinal muitas morreram e ainda morrem por esta causa, tentando a liberdade. Muitas condenadas, apontadas, achincalhadas socialmente, acusadas de tais crimes: “namoradeira, “saia curta demais” , “desfrutável”. Estamos vivendo um tempo em que o novo feminismo avança, espalha seus poderes em todos os campos possíveis. A sociedade feminina clama o respeito. 

É hora de sermos coerentes com a nossa independência e isso não nos masculiniza nem nos tira a beleza. Pelo contrário, nos garante a verdadeira realeza. 

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