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Receita de mãe

Vivian Habib é conhecida na família e entre os amigos do filho pelo pão de mel e os bombons de chocolate

Foto: Lucas Benevides
 

Algumas receitas se tornam tradições nas famílias e modos de perpetuação de memórias afetivas. Esse resgate acontece, geralmente, através das matriarcas, que se utilizam da magia da mesa – o momento em que as famílias se reúnem em torno do alimento – para dividirem a refeição, as conquistas, as discussões e as afinidades. É nesse ato de compartilhamento que os laços se fortalecem. 

Quando o filho Pedro, de 15 anos, mas na época com oito meses, passou por uma cirurgia, a mãe e advogada Vivian Habib, de 48, parou tudo para ajudá-lo na recuperação e acabou aproveitando a pausa para resgatar algumas receitas de família. Entre elas, achou a de pão de mel e de bombons de chocolate, que acabaram se tornando sua marca registrada nos eventos familiares e entre amigos.  

“Minha família diz que, quando come o pão de mel, parece que chegam ao céu. Que a sensação de prazer é sensacional, afirmando que, além do gosto, o prazer é da boa lembrança que ele traz. É inesquecível quando comemos algo que sabemos quem fez e o carinho que foi envolvido durante o preparo. Me lembro sempre dos lanches e conversas com minha avó e como isso me traz até hoje boas recordações. Cozinhar é um ato de amor, doação ao próximo. É uma dádiva de Deus”, conta Vivian, que também é mãe do Miguel, de 10 anos, que sempre pede para ela fazer o pão de mel e o brigadeiro quando os amigos vão visitá-lo. 

O sucesso foi tanto que ela se tornou microempreendedora em 2011, quando abriu a Caramelle Chocolates. Foi assim que as receitas árabes de sua família, cheias de pratos salgados típicos como quibe, homus tahine e falafel, já famosas pela tradição, passaram a integrar outras famílias com doces e bombons. 

“Me sinto deixando um legado para minha família, como fez minha bisavó e avó. Sei que meus filhos, mesmo com toda a tecnologia existente hoje, nunca deixarão de se reunir e compartilhar momentos juntos, olho no olho com a família e amigos”, ressalta Vivian, lembrando que os momentos à mesa são sagrados: “Sempre fazemos uma refeição juntos, durante a semana é no jantar e nos fins de semana no almoço e lanche. Conversamos sobre nosso dia, trocamos ideias, refletimos e agradecemos. Nesse momento, é proibido o uso de qualquer tecnologia. É o momento que temos para semear a importância de estarmos juntos”, estabelece. 

Marize Tolezano virou praticamente uma embaixadora do rosbife ao molho de orégano, uma paixão dos filhos e enteados

Foto: Lucas Benevides

Uma das adversidades que as mães encontram para manter a tradição da união nas refeições é quando os filhos crescem. Mesmo com a distância, casas separadas, independência, essas receitas das mães, que são pedidas pelos filhos e enteados e feitas com o maior carinho, ajudam a estabelecer o elo entre a família. Na casa da empresária Marize Tolezano, de 63 anos, é assim. Ela é mãe de Júlia (28, a jornalista e vlogueira Jout Jout, com mais de 2 milhões de seguidores no YouTube) e do estudante Paulo Manoel (18). Nas ocasiões especiais em família, também cozinha para os enteados João e Pedro. 

“O João está com 38 anos e até hoje ele me pede para fazer a receita de rosbife ao molho de orégano, que faço há quase 40. Já falei para ele que, nesse tempo todo, aprendi vários pratos gostosos, mas ele insiste em pedir esse, diz que tem gostinho de infância e gosta do arroz molhadinho com o molho da carne”, lembra Marize.

Antigamente, os filhos ainda crianças perguntavam porque o prato só era feito quando tinha visita em casa. Ficou tão famoso que começou a ser quase obrigação em ocasiões especiais e nos fins de semana. A empresária conta que, para ela, a comida tem um valor afetivo importante nas memórias que guardamos. 

“As melhores recordações que tenho da minha infância estão ligadas aos almoços feitos pela minha mãe. Acho que a felicidade é feita dos momentos que passamos com quem amamos. Fica melhor ainda quando em torno de uma boa mesa. Meu filho, Paulo Manoel, adora tudo o que faço. Mesmo que já tenha jantar pronto, ele pede para que eu faça as minhas misturinhas. A Júlia não mora mais conosco. Então, quando vem passar uns dias, tem os seus pratos preferidos e diz que não come tão bem nem nos melhores restaurantes do mundo”, diz Marize, orgulhosa.

Sobre a importância da criação de memória afetiva, principalmente aliada ao resgate de tradições familiares, de acordo com a psicanalista Lívia Nakaguma, essas tradições são as melhores formas, e talvez as mais efetivas de se passar a história de geração para geração.

“O que seria melhor do que comida e a mesa onde a gente se reúne para passar essa história da família? A ancestralidade, a história e a genética dizem para a gente de onde viemos e, muito provavelmente, para onde vamos nesse caminho que seguimos. É baseado nas nossas origens, em como a gente é criado, com o que a gente se identifica e como a gente comemora e se reúne, que vamos criando novos laços e novos caminhos. Até na negação. Até quando eu nego a minha ancestralidade e minha genética, eu estou usando ela como base. A história do sujeito é a base para ele(a) se construir. A gente sabe também que são nessas reuniões em que tudo realmente é colocado à mesa, onde ‘lavamos a roupa suja’, onde surgem as discussões e debates. E não há lugar melhor para se transmitir essa base”, argumenta Lívia. 

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