Rumo à França

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Em ritmo de Operação França, as adolescentes prometem quebrar preconceitos e mostrar arte e esperança

Foto: Lucas Benevides

Cinco meninas da periferia sofrem discriminação todos os dias devido ao lugar onde moram. Mesmo apaixonadas pela arte, não têm as oportunidades que as pessoas mais abastadas possuem. Quebrando todos os estigmas e preconceitos, cinco adolescentes do Caramujo, na Zona Norte de Niterói, seguem em breve para a França, para uma semana de workshops e apresentações de dança, teatro e música. 

Contempladas pelo “Nosso Futuro”, projeto do “Théâtre Nouvelle Génération”, na cidade de Lyon, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos de Niterói, as meninas foram escolhidas por se encontrarem em uma região de risco social e já possuírem contato com a arte desde cedo. Marcele, Hellen, Andressa, Caiane e Maria Fernanda fazem parte do grupo do Centro de Referência e Assistência Social (Cras) do Caramujo, onde discutem diversos temas no Grupo de Convivência e fazem aulas de dança com The Rap, oficineiro que também está montando uma apresentação para a França. 

O projeto francês, além de receber representantes brasileiros, também conta com a performance de pessoas de outros países, como a Romênia, Finlândia e França. Niterói foi a cidade escolhida para se apresentar com duas performances em Lyon, uma de zumba e uma dramatização, utilizando tijolos onde as meninas escrevem o que desejam para construir um bairro melhor. De acordo com a coordenadora do Cras, e acompanhante das meninas na viagem, Sheila Bahia, o aprendizado que as meninas terão a partir desse projeto será levada para toda a vida.

“Quando surgiu a oportunidade, todo mundo ficou em dúvida, ninguém imaginava ir para a França. O Caramujo é uma comunidade muito carente. Elas vão viver coisas diferentes, conhecer um outro mundo, o que vai mudar muito no modo de pensar delas”, afirma.

Durante um mês, as cinco meninas tiveram a oportunidade de participar de aulas com o professor francês Nicolas Boudier e com a brasileira Astrid Toledo. O projeto visa a inclusão social e aprofundamento das crianças no mundo da arte, o que é fundamental para a melhora na condição e contexto de vida das garotas. De acordo com Hellen Vitória, uma das participantes do projeto, a oportunidade é única para ela que, durante muito tempo, quis aprender mais sobre dança. 

“Eu faço dança desde muito nova. Sou apaixonada desde quando via filmes da dança de rua. Quando minha mãe conheceu o The Rap, eu falei que eu precisava fazer aulas. Eu precisava dançar”, lembra.

Apesar do bairro Caramujo ser conhecido pela violência, as meninas estão otimistas quanto à visão que possuem dele. De acordo com elas, todos os lugares apresentam lados ruins e não negam que o bairro seja violento, mas dizem que há pontos positivos que fazem a vivência delas no Caramujo valer a pena. 

“O bairro é muito família, as pessoas que moram lá estão há 10 ou 20 anos. Lá só tem gente antiga, gente que tenta mudar a visão da sociedade sobre o bairro. As pessoas acreditam que no nosso bairro só tem violência e continuam batendo na tecla do preconceito. A gente quer mostrar que lá também tem gente que se interessa por cultura”, expõe a adolescente Marcele Veríssimo.

As meninas contam que quando vão para outras localidades da cidade e dizem que são do Caramujo, o preconceito as incomoda. Para elas, as pessoas veem o lado ruim do bairro, por não saberem que ele possui muitos projetos sociais e gente trabalhadora. 

“Todos pensam que lá é só bandido e favelado, mas nem todo mundo é assim. Tem gente lá que trabalha e sai de casa todo dia para ganhar a vida. Nós vamos tentar levar para as pessoas o que realmente ele é”, revela Caiane Liz. 

O projeto com as jovens não se limita à ida a Lyon. De acordo com os coordenadores, a ideia é continuar com o trabalho, para firmar a formação artística dos jovens através de oficinas permanentes. De acordo com a jovem Andressa Honorato, o aprendizado do “Nosso Futuro” foi muito além da interpretação e dança.

“Essa experiência me fez bem. Na França, eu espero ficar mais ligada com o teatro, que eu amo, e estar concentrada nas oficinas”, finaliza.