NITERÓI/RJ
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Seguimos errantes

Tô indo. Ah, já entrou. O quadro é novo. Trouxe os discos? Cê sorri e eu me gargalho por dentro. Quer beber algo? Que cedo? Ok, com gelo. Te contei que me esqueci como é não te contar as coisas? Resolveu aquele troço no banco? Já consertou o chuveiro? Trocou o carro de novo? Tá, vamos trocar de assunto. Coloca a nove, aquela nossa. Me conta mais. E a tua família? Tua mãe já deixou de me odiar? Teu pai já descobriu meu nome? Nossa, você tava com sede. Mais. Não sei se teve culpa. Culpa mesmo, sabe? A gente era imaturo demais para nos colocar culpa. Éramos como pecadores que nem sabiam o que de fato era pecado. Deixa o disco rolar. Volta. Essa saia é nova? Não achei curta. Você levantando fica curta, né? Não, não faz isso não, sério. Tá, continua. Coloca a onze, aquela baladinha. Tá, muda o disco, você quem manda.

(Silêncio nas bocas, o disco do Rubel a tocar, há no prédio seis ou sete pessoas falando baixinho por aqui, na rua da frente, há pássaros tímidos ainda, nenhum telefone toca, mas há barulhos de carros, algum avião passou apressado, vindo de Hong Kong ou Nova York, pensei até: a gente nunca foi pra Nova York ou transou num avião.)

Tem certeza que você quer isso? Que saudades de te ver de perto. Bota aquela do Legião. Aquela que você diz que é triste e eu digo que fala sobre a gente. Eu dizia ainda é cedo, você diz. Era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei, eu digo.

Eu não estava perdida. Eu também não estava sem pra onde ir. Então tá bom.

(Uma lembrança ruim e você me abraça. Diz que eu não deveria ter saído de um lugar que eu nunca deveria ter entrado. Diz que odeia lembrar que me ama, como se fosse possível isso. Cito que o amor é infinitamente maior do que o ódio e você diz que eu copio o Hemingway demais, até na sua falsa pretensão em buscar musas inspiradoras por aí.)

Nossas almas não dançam a mesma valsa celestial, mas nossas mãos se encostam tentando relembrar a coreografia passada, que a gente mesmo se esforça para esquecer daquele sincronismo corporal quase perfeito. Mas o problema não é não saber mais dançar. A dificuldade é ter que buscar mais refrões quando a música acabar, você diz.

Mas antes dos voos, a gente luta contra, diz que não, como provas a alguém ou a nós mesmos de só pra dizer que tentamos seguir o “não”, como álibis para um crime ainda não cometido, mas milimetricamente planejado, em frases tortas, abraços apertados e olhares pecaminosos.  

Seguimos errantes. 

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