Sozinhos, sim. Solitários, nunca

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A jornalista Táia Rocha seguiu os passos das irmãs e, há cinco anos, saiu da casa dos pais para morar sozinha

Foto: André Redlich

Os números não deixam dúvidas: o brasileiro vive cada vez mais sozinho. De acordo com dados do estudo mais recente divulgado sobre o assunto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014, 70 milhões de pessoas faziam parte deste grupo de pessoas que não dividem o teto com ninguém. Esse aumento no número de domicílios habitados por apenas uma pessoa segue uma tendência mundial. Em Nova Iorque, por exemplo, em mais da metade das casas mora somente uma pessoa. Na Inglaterra, aproximadamente 30% das residências são habitadas por uma pessoa. 

Alberto Alecrim garante: “O bônus é a liberdade de você dispor do espaço da maneira que quiser. O ônus é você arcar com todas as despesas”

Foto: Douglas Macedo

Ainda segundo os números, mais da metade das pessoas que moram sozinhas já passaram dos 50 anos. Na contrapartida dessa parcela da população está a chamada “geração canguru”, entre 20 e 29 anos, que cada vez mais tarde sai da casa dos pais. Já na faixa etária que vai até os 34 anos, os números de pessoas que moram sozinhas cresceram. Entre 2004 e 2014, o percentual subiu de 21,2% para 24,3%. 

Aos 31 anos, Táia Rocha se enquadra nessa última categoria. Há cinco anos, a jornalista saiu do casa dos pais e entrou de cabeça na experiência de morar sozinha, caminho que as irmãs já tinham seguido. “Lá em casa, ao contrário do que acontece em muitos casos, meus pais sempre estimularam a gente a buscar nossa independência e a sair de casa que terminássemos a faculdade”, conta. 

Para Táia, algumas dicas são básicas para quem vai morar sozinho: “Morar perto de um supermercado e do metrô é fundamental!”, brinca. Dicas simples mas que, segundo ela, facilitam e barateiam bastante a vida. A jornalista conta, ainda, que ao longo dos anos, aprendeu que se fosse ficar planejando por muito tempo a hora de sair da casa dos pais, não teria se mudado. 

“Se você ficar esperando o momento  ideal, o emprego perfeito, a hora certa não chega nunca. Eu queria traçar o meu caminho. Morar sozinho é igual ter filho, ou sair do país, se você pensar muito, não faz. A maior vantagem é você crescer. Sempre que eu vejo alguém na dúvida, eu indico que experimente, porque é uma experiência muito boa. O contra é o preço. Morar sozinho é muito caro”, destaca. 

Táia gostou tanto da experiênia que começou até um blog sobre o assunto. O “Perdida na UDU” – a sigla significa Unidade Domiciliar Unipessoal – durou cerca de um ano, “quando tudo ainda era novidade”. Quando a novidade foi passando, ela acabou abandonando o projeto. Com o tempo, ela também foi adquirindo mais maturidade. 

“Quando você vai morar sozinha tem uma liberdade inédita. No outro apartamento, por exemplo, eu botava o som super alto, coisa que eu nunca poderia fazer na casa dos meus pais. Agora não mais, até porque já estou mais madura. Porém, chego em casa a hora que quero, trago quem eu quero para cá, aqui é tudo no meu tempo, no meu jeito. Isso eu acho muito legal”, diz. 

Ao longo do tempo, Táia foi adquirindo também manias peculiares e típicas de pessoas que moram sozinhas. “Passei a falar muito sozinha. E quando é uma coisa pessoal e não quero que os vizinhos fiquem me escutando, falo em inglês. Mesmo que entendam, já dá uma embolada. Fica a dica, gente”, indica, aos risos.

Aos 54 anos, Marco Alexandre Neves esbanja experiência neste quesito, já que mora sozinho há mais de duas décadas. Já dividiu casa com amigos, com familiares, mas desde os 28 anos é apenas ele em seu apartamento. Isso, é claro, quando ele não está no ar. Literalmente. É que Marco é comissário de bordo, e passa boa parte do tempo voando. 

Marco Alexandre Neves: há duas décadas morando sozinho depois de dividir casa com amigos

Foto: Lucas Benevides

“Viver sozinho é diferente de viver solitário. Eu convivo muito bem comigo mesmo. Valorizo muito minha independência. Isso é uma das coisas que a aviação me trouxe. Eu vou para a praia sozinho, ao cinema, ao teatro. Mas sei a hora de estar com meus amigos”, afirma. 

Quando está em terra firme, no aconchego do lar, Marco tem o costume de receber os amigos. Mas alerta: na casa dele, as regras são as dele. “Eu sou virginiano, chato com organização. Gosto de receber os amigos, mas como moro sozinho, isso aqui é meu território. Dividir esse espaço aqui, apenas temporariamente”, conta. 

Marco reconhece que existe, sim, uma preocupação com um possível futuro no qual ele esteja morando sozinho. Ele diz que se vê, daqui a alguns anos, levando uma vida parecida com a que já leva hoje. O ritmo de vida como comissário o impede de ter em casa um animal de estimação como companheiro. 
“Vontade eu até tenho, mas a minha rotina não permite. E a minha empregada não deixa!”, brinca. 

Há mais de 15 anos, Alberto Alecrim, de 52 anos, mora sozinho. Há aproximadamente sete anos, o advogado é síndico do prédio onde mora, no Centro de Niterói. Para ele, o processo de criar um universo muito particular, onde tudo corre de acordo com as suas ordens, é uma das diferenças marcantes entre morar sozinho e dividir a casa.

“O bônus é a liberdade de você dispor do espaço da maneira que quiser. O ônus é você arcar com todas as despesas sozinho”, acredita Alberto. 

O advogado também não vê o fato morar sozinho como algo solitário. Por se desdobrar entre muitas atividades durante o dia, ele sente que, quando vai para casa, está em um refúgio, e não em um local solitário. 

“O que eu indico para a pessoa que quer morar sozinha mas não quer ficar solitária é que ela participe de atividades culturais, que exercite sua vida pessoal. Teve uma época em que eu estava muito sem grana, eu pegava um ônibus e ia para um museu no Centro do Rio, ia à biblioteca, pegava um livro. Aquilo preenchia a minha vida”, lembra. 

 A psicóloga Daiana Cristina Rauber faz questão de frisar sobre que o momento certo para morar sozinho “não existe”. Ela ressalta que esta é uma decisão que em uma ideia coletiva supõe-se estar ligada ao aumento das responsabilidades e como um símbolo da vida adulta. “A maturidade acontece aos poucos, ela pode ser desenvolvida enquanto a pessoa ainda mora com os pais, ou apenas um longo tempo depois de estar morando sozinho e ter passado por diversos momentos difíceis. Em qualquer um dos casos, vale voltar o olhar para si”, diz. 

E a especialista completa: “Morar sozinho pode ser uma grande jornada de autoconhecimento e você pode começar a fazer isso antes e analisar o que motiva a sua independência, como funciona a sua zona de conforto e o que está disposto a abrir mão, como lidar com as mudanças e, claro, descobrir o sentido que tem para você ir em busca do crescimento apesar de tudo. Morar sozinho pode ser uma grande mola propulsora para alcançar seus sonhos e desejos, como também, pode fazer você perder um bom tempo. Em todas as alternativas, você pode encontrar aprendizados. No fim das contas, morar sozinho não faz mágica nas nossas vidas, é apenas mais uma variável que está sujeita a todo um contexto de história de vida, personalidade, ambiente e relações”. 

Daiana esclarece, ainda, que o processo de se adaptar a uma rotina solitária é uma construção, por isso, fica difícil definir quando o processo de adaptação está completo e quanto tempo isso levou. A forma como cada um lida com a solidão varia de cada um. “A motivação para buscar pessoas ou ficar sozinho dependerá dos significados e valores atribuídos para cada um deles. Aqui, destaco dois pontos: o primeiro é sobre ficar sozinho, você pode estar sozinho independente de onde ou com quem mora, mas é importante também estar consigo mesmo. O segundo é sobre formar e manter ligações com outras pessoas. Experienciar relações e formar vínculos de amor, conhecimento e até de ódio, são elementos de muita importância para o desenvolvimento da mente e da personalidade”, explica.  

Daiana enfatiza também que a solidão só é um problema dependendo do modo como cada um se relaciona com ela. “Se for encarada como um encontro com o próprio ser, apropriando-se desse momento de um modo criativo, tende a ser uma experiência libertária”, diz. Mas ela alerta: isso nem sempre é fácil. Os sentimentos de abandono, ausência do outro, a angústia de estar só, o vazio, podem prevalecer. 

“A solidão é esperada na vida de qualquer pessoa, contudo, quando estar só passa a causar sofrimento, dor e/ou angústia de maneira significativa, e passa a trazer prejuízos no funcionamento social, ocupacional, algum tipo de incapacitação, é preciso investir na capacidade de ficar só de maneira positiva, a psicoterapia é uma alternativa para isso”, defende.