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Tábua de tiro ao Álvaro (Parte 2)

Estou, mais uma vez, chamando à luta os humanistas, os que clamam pelos direitos humanos e dedicam grande parte de sua luta compondo narrativas a partir de seu parlamento, seja ela qual for. As salas de aula, os palcos, as mídias, as telas. Atenção, jovens roteiristas, em suas equipes há quantos negros? Podemos ser todos que estou chamando de abolicionistas modernos!

Por outro lado, estive agorinha na Flup, a Festa Literária das Favelas, bravamente empunhada por Julio Ludemir e Ecio Salles, e foi na Mangueira, estava lotado, e era de tarde, e era sábado, o encontro esplendoroso revelando que os movimentos sociais estão bombando nas periferias, nas favelas. Não somos mais o mesmo País, repito, galera, há uma esquerda invisível aos olhos da Casa Grande que está nas suas comunidades atuando de modo diferente.

Muitos puderam ir à universidade nos últimos governos, antes do golpe, e muitos são educados pela cultura do rap que cresceu na mesma medida em que o silêncio não é mais possível. Estou dizendo para não ficarmos só em casa vendo Netflix.

Sem meter a mão na massa, sem falar no difícil assunto, sem perguntar a si mesmo se você seria capaz de namorar uma mulher ou homem negro. E se seria, por que não rolou até agora? Será só questão de gosto ou não estava no escopo dos que te educaram? E não lhe foi permitido sonhar. É como costumo parodiar: “Precisamos falar sobre Kevin”, ou seja, assunto amargo, remédio difícil de tomar, mas depois a gente melhora, creiam-me. Fica um ser humano melhor, mais coerente com o nosso discurso.  

Meu filho, Juliano Gomes, o sarará do qual muito me orgulho e que também já foi abordado pela polícia porque tinha o cabelo black grande e teve que ouvir do policial que ele tinha aspecto suspeito, pois é, esse cara está promovendo uma sessão no Instituto Moreira Salles - RJ onde exibirá o clássico “Adivinhe quem vem pra Jantar”, logo depois da sessão de “Corra”, tudo seguido de debate com esse crítico linkando as duas obras e seus papéis dentro do tempo.
 
Bom, essas palavras querem beijar o rosto do meu querido amigo, ofendido no sábado passado, tratado como subcidadão, ferindo a constituição que o presume inocente, a princípio. Mas a boa notícia é que ele é articulado, tem público, visibilidade, advogado, e a ação não ficou invisível exatamente para que não fique impune.

Mas o mais pedagógico é que essa cena explícita mostra para muitos o que acontece nas favelas e em todos os lugares que a gente não vê, onde a justiça não alcança.

Através dessa injustiça ocorrida na Lapa, coração carioca, podemos ver o crime que acontece no escuro dos “quartos de despejos” da cidade que raramente importam às primeiras páginas dos jornais. Uma amostra das notícias que estamos trazendo na poesia que fazemos, nas narrativas que armamos. Enquanto vilões graúdos praticamente secaram as vias da nação, uma multidão chamada povo vive um ultraje diário, inclusive os policiais. Mal pagos, trabalhando em péssimas condições, com uma formação desatualizada dos caminhos conceituais da segurança contemporânea, formada para não ser uma polícia comunitária, esses profissionais, muitas vezes negros e pobres também, morrem na mesma guerra. Gente que queria ser alguém que pudesse lutar pelo seu semelhante e que foi massacrado ali. É verdade. Há grandes policiais nas corporações, homens sensíveis, honestos. Mas o nosso sistema está cupinizado.

Bem, esse assunto é sem fim, mas tudo isso é para beijar o Nego Álvaro, chamar à luta meu semelhante, os que apreciam meu pensamento, os que me ensinam com os seus. É preciso que toda a sociedade se envolva para cuidar de cada criança que vai compor a nação de amanhã. Seja o que for o futuro, a população negra não pode seguir sendo o alvo, o lugar que existe para ser machucado por todos. Seja mulher, seja homem, seja menino.

O nome é alvo, mas de branco não tem nada. É visto como um ponto preto, um lugar para se atirar. Apenas um alvo.

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