NITERÓI/RJ
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Tempo tempo

Em algum tempo teremos a vida que desejamos hoje. Essa vida que – ora com pranto, ora com prece – nos faz seguir desenfreadamente em busca de prosperidade, sucesso, riqueza, sorte no jogo e no amor. Esse plano que nos motiva a levantar todos os dias, cedo ou tarde, vai vir. Essa falta de plano que nos angustia, um dia também vai passar. Talvez com um fervilhar de ideias, uma conversa, uma cerveja, um tabaco. As ideias vão vir. Pensamos com a esperança de quase todos que esperam: quando esse dia chegar, o dia em que o plano perfeito se cumprir, eu vou ser uma das pessoas mais felizes desse mundo. Mas, diante disso, e, sobretudo por tudo que veio antes de agora, a única coisa que ainda espero é que a gente saiba enxergar e, com muito mais sorte, agradecer, porque estaremos exatamente onde escolhemos estar.

Tudo isso que temos aqui e agora, de alguma forma, desejamos muito, com todas as nossas forças. Agora que está próximo, que alcançamos com as próprias mãos, que gozamos do benefício de ter o que sempre quisemos, como seguir? O que fazer com isso tudo que bradamos, defendemos, jurávamos amar incondicionalmente? Escreveram manuais de conquista, obstinação, livros de autoajuda, fórmulas capitalistas para estimular a competição e a necessidade de consumo, treinamentos de como ser um empreendedor da própria vida. Mas pouco se lê sobre qual é a fórmula para ser grato pelo que se tem. E, olha, isso de ser grato de nada tem a ver com não querer outras coisas. Tem mais a ver com olhar para a vida com mais amor, mais paciência. Tem mais a ver com agir, aguardar na disciplina pelos próximos dias.

Sem angústia, sem medo, sem apressar o curso das coisas, sem tantas exigências, a gente aprende a passar vivo pelas coisas, sejam boas ou ruins. A gente para de pensar só em resultados – em certo e errado – e passa a enxergar processos. Passa a entender que esses tempos de colheita podem ser mais prazerosos do que a próxima conquista – sabemos talvez não dê tempo de ela chegar. Recomenda-se extinguir esse sufoco ou até mesmo o nosso pensamento caótico para viver de forma plena o que ganhamos por merecimento. Não estamos em um beco sem saída. Não estamos construindo muros. Não estamos inventando a roda. Estamos, de uma forma ou de outra, com o perdão de todo o clichê, colhendo frutos. Não devemos esperar que ninguém segure na nossa mão, que um amigo faça pela gente, que um amor se compadeça da nosso temor em não conseguir. Há tantas outras coisas acontecendo. Estar aqui faz todo o sentido. 

Precisamos aprender a falar com prazer e entusiasmo sobre as nossas próprias conquistas, reconhecer a importância delas. Saber listar os percalços todos, já que alguma coisa aprendemos com eles – ainda que seja dar um passo atrás, contornar e seguir em frente. Precisamos aprender a rir mais de nós mesmos quando um plano não dá tão certo assim, a conversar sem a pretensão de convencer, e sim de entender o que se passa com a gente e com o outro. Ter ouvidos mais apurados para ouvir a trombeta que anuncia as desgraças todas. Entender também, de uma vez por todas, que fazer pelo outro é também fazer por nós mesmos. É ser feliz com o outro, através do outro. Nos distraímos com o que é só besteira. Procuramos em todos os cantos um jeito de fazer sem sofrer tanto, sem ter o estômago nas mãos. E a única forma comprovada de se viver bem é ir em frente, dando às coisas a importância que elas têm. Importar-se só com o que é importante. Resolver, mas entender os processos. E, claro, sorrir: para abrir portas, destravar caminhos. 

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