NITERÓI/RJ
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Um pouquinho de proteção ao menor abandonado

Os quatro séculos de escravidão marcaram de maneira violentíssima a história brasileira, deixou-nos sequelas. E a gente tem que cuidar disso como uma doença que atinge uma família, no caso a brasileira, que por ser hereditária, torna-se difícil de combater, mas não impossível. Tanto que, se todos nós procurarmos, acharemos em nossa atitude contemporânea vários resquícios daquele sistema sórdido de poder, abuso e desrespeito profundo aos direitos humanos.   

Os fundamentos daquela estrutura escravocrata ainda rondam nossas atitudes e faz com que a gente não se incomode com uma camada imensa da população negra que é assassinada pela polícia, que é impedida de frequentar certos lugares, a quem é negado muitos saberes, cargos e outras altas posições sociais. Nunca tive um gerente de banco preto! Por que, se estou no Brasil? 

O exercício da cota para brancos é tão eficiente e nós nos calamos. E, como o menino de 10 anos que a polícia matou não é nosso filho, e continua valendo menos como valiam os pretos escravos, não nos incomodamos. Se eles são presos, onde ficam presos, se cumprem medidas, se essas medidas são realmente socioeducativas, não nos importamos. Não entendemos a força dessa juventude, que nós perdemos e excluímos sistematicamente, como força produtora da riqueza brasileira. 

Uma criança que vai para o crime é uma criança perdida, um adolescente que comete delito é um adolescente que se perdeu. O que fazemos quando encontramos um menor perdido? Procuramos seus pais, e se eles não existirem ou não honrarem tal função, vamos fazer com que o jovem ache outro jeito de encontrar um caminho. Uma pessoa tem que ter estrutura, amor próprio, personalidade, clareza da própria identidade. E isso se faz em um ambiente onde haja segurança afetiva, boa estrutura emocional. Dificilmente dentro de um quadro de miséria e sucessivas exclusões, essa criança teve acesso a tais condições. 

O Estado promete, através da sua constituição, oferecer a esse menino uma socioeducação. Por isso, defendo a ideia de fazermos dessas instituições um verdadeiro colégio interno de altíssima qualidade para dar àquele menino a base que ele nunca teve, para que ele, de lá, retorne com a sua juventude, com a sua testosterona ativa, e possa servir ao seu país como força produtiva, como produtor de riqueza. 

Há dois anos, a Casa Poema está realizando um projeto piloto com o apoio da Fundação José Silveira e a OIT, o “Versos de Liberdade”, onde a palavra poética abre portas, cria horizontes, educa, aumenta vocabulário, acende clareiras no peito do jovem que, por incrível que pareça, tem esperança. Na unidade Casa Salvador, em Tancredo Neves, conheci o Lucas. Digo aqui o nome dele porque é um exemplo. Um rapaz incrível, que tem consciência de onde está e afirma que vai ser advogado quando sair de lá. 

No “Versos de Liberdade”, passamos quatro dias trabalhando com eles, estudamos Mário Quintana, Adélia Prado, Solano Trindade, Fernando Pessoa, e depois eles apresentam o recital no Ministério Público, em Salvador. Na plateia, juristas, desembargadores, promotores e o público. Nessas ocasiões, o Lucas sempre dá o seu show: articulação, organização do discurso, empatia e seu olhar e coração de menino bom. E é. Errou, foi privado de liberdade por isso, e dentro do seu cumprimento de medida, ele se esmerou em ler. Líder natural, organiza abaixo-assinados pedindo livros. Entende a hierarquia da rede de instituições e entende os seus direitos. 

Ora, nós sabemos que nós somos uma narrativa? Quem eu sou? Sou um nome e sou as palavras que digo de mim. Para que os meninos saiam dali de cabeça erguida, eles têm que ter um estudo, profissão e palavras que os designem e os reconduzam a um caminho não agressivo com a sociedade. Conheci também o Jurandir, um gerente desta unidade onde já fizemos três oficinas. Um filósofo, um homem inteligentíssimo, que compreende meninos como o Lucas, e sabe qual é o seu objetivo no valioso cargo: reconduzir ou conduzir esses meninos ao caminho do sonho, provocar o nascimento de mais Lucas. Lá, aprendem profissões, têm atendimento psicológico, têm assistentes sociais. 

No dia em que houve o encontro do “Objetivos do Milênio”, envolvendo 800 juristas, desembargadores e profissionais da Justiça baiana e brasileira, Lucas fez um discurso estarrecedor depois de falar poesias de outros e dele mesmo: “Gostaria que vocês que estudam, que pensem num projeto para cuidar do menino antes que ele cometa o erro. Diminuir a maioridade penal só vai aumentar a população carcerária, mais nada. Gostaria que vocês apostassem em nós, porque nós temos jeito, eu tenho jeito”. Isso é apenas parte do discurso dele. Ficou todo mundo impressionado, e olha que aqui eu não disse o discurso na íntegra com as palavras dele. Há muitos Lucas por aí, só que de alguma maneira nós os mandamos para o tronco. Antes, durante e depois do crime (continua). 

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