NITERÓI/RJ
Min:   Max:

Intolerância à lactose e alergia alimentar

 

Divulgação

São dois problemas clínicos diários, para aqueles que consomem o leite de vaca, que possui em sua constituição estes dois nutrientes fundamentais: o açúcar lactose e a proteína do leite. 

A intolerância à lactose está relacionada ao açúcar do leite. Todos os leites de mamíferos têm em sua constituição básica um açúcar, chamado de lactose,  qualquer que seja o mamífero. O segundo problema é a alergia ao leite de vaca. 

Na intolerância à lactose o que a provocou  foi a falta de uma enzima, a lactase.  Já  o que ocorre na alergia alimentar é o desencadeamento de uma resposta alérgica a uma proteína da dieta, no caso específico a proteína do leite de vaca.

São, portanto, dois problemas distintos, originados do mesmo leite de vaca. Dois problemas completamente diferentes, mas que até hoje seguem sendo mal compreendidos e confundidos entre si. 

A alergia ocorre quando uma proteína qualquer da dieta provoca uma resposta imunológica adversa, ativa o sistema imune do indivíduo e gera sinais e sintomas clínicos, em quaisquer dos sistemas orgânicos do indivíduo, que atuam como órgão de resposta clínica. 

A intolerância ou má absorção da lactose é caracterizada pela deficiência de lactase, uma enzima produzida na mucosa intestinal, mais precisamente nas células que revestem nossos intestinos, chamados de enterócitos. Este agravo foi descrito pela primeira vez por Hipócrates, no entanto, somente nos últimos 50 anos esta condição tem sido reconhecida e diagnosticada.

A lactase divide a lactose em glicose e galactose, dois açúcares que são facilmente transportados através da parede intestinal. Altas concentrações desta enzima estão fisiologicamente presentes nos recém-nascidos. Entretanto, após o desmame, em grande parte da população mundial, ocorre uma redução programada geneticamente e irreversível destes níveis da enzima lactase. 

Esta redução não ocorre em todas as pessoas. Alguns grupos étnicos, caracteristicamente, apresentam altos níveis desta enzima durante toda a vida. Isto pode ser observado nos europeus e com os americanos brancos. Nos hispânicos, negros e asiáticos os níveis da enzima costumam sofrer reduções entre o 2º e 3º ano de vida, até quase desaparecer por volta dos dez anos de idade.

Contraste quanto ao consumo 

Todo mamífero, recém-nascido, se nutre exclusivamente do leite materno, rico em lactose. Vive assim, bem-nutrido, até o desmame. Isto porque todo mamífero foi programado geneticamente para produzir a enzima lactase, que digere a lactose, por toda a fase de amamentação. Esta enzima chama-se LACTASE. Após este período o programa genético de produção da lactase entra em autodestruição, ao que denominamos, em medicina, de apoptose, para a enzima que digere a lactose. 

Este período de perda da lactase, no homem, vai do segundo ao décimo ano de vida. Sendo assim por volta do décimo aniversário, 70% da população mundial, pode não ter mais níveis de lactase satisfatória no seu tubo digestivo e ficam incapazes de digerir a lactose. Não fazendo mais a digestão deste açúcar, passam a sofrer de “intolerância à lactose”. 

Confira os principais sintomas

Aqueles que consomem a lactose e não têm lactase suficiente para sua digestão vão apresentar as consequências clínicas da intolerância à lactose. Este açúcar não digerido vai ser consumido, no nosso tubo digestivo, por nossa flora bacteriana. A lactose fermentada no nosso tubo digestivo vai produzir a clínica da intolerância à lactose, causando gases, distensão abdominal, dor abdominal e diarreia. Aqueles que apresentam estes sintomas devem procurar seu médico.

Trata-se de um mito afirmar que uma pessoa tem alergia à lactose. O correto é intolerância, por não ter a enzima lactase em seu tubo digestivo. Não existe alergia à lactose. E também é mito afirmar que uma pessoa nasceu com intolerância. Não existe tal situação em crianças normais antes dos dois anos de vida, pois a produção de lactase é geneticamente induzida em todos nós humanos até os dois anos de vida. Após esta idade ocorre a perda dos níveis de lactase e o aparecimento dos sintomas de intolerância. O estabelecimento da intolerância à lactose é gradativo e atinge gravidade aos dez anos de vida. Apenas algumas famílias de finlandeses tem deficiência de lactase desde o nascimento e não  podem tomar por isso os leites com lactose desde o nascimento.

 

Divulgação

Diferença entre os povos 

Vamos apresentar a seguir os diferentes povos entre as várias raças e suas prevalências de tolerância à lactose. Só toleram a lactose, na idade adulta, os mutantes, dentre nós homens, que apresentaram uma variável genética, de produção de lactase por toda a vida. Este grupo seleto representa 30% da população mundial e pertence aos grupos étnicos que apresentam altos níveis de lactase em seu tubo digestivo, por toda sua vida. A distribuição racial destes níveis de produção de lactase esta apresentado para as raças como segue:

Os povos dos países em coloração preta têm baixos níveis de lactase e altos níveis de intolerância à lactose, enquanto que os povos dos países em cor clara tem alto teor de lactase em seus tubos digestivos e não sofrem de intolerância à lactose. 

De acordo com as etnias prevalentes branca, negra ou amarela, mostramos a seguir como se distribuem percentualmente entre elas os nossos povos portadores de altos níveis de lactase no tubo digestivo, onde se destacam os dinamarqueses, com apenas 3% de intolerância à lactose e os povos com baixos níveis de lactase, com quase 100% de intolerância à lactose como ocorre com os árabes na etnia branco, com os afro-americanos na etnia negra e com os filipinos na etnia amarela.

Número crescente de casos lota consultórios
Passa o tempo e nos deparamos hoje com um cenário real, com um número crescente e avassalador de casos de alergia alimentar, que ocupam hoje parte das consultas nos consultórios pediátricos.  

São vários os fatores concorrentes para o aumento da AA em todo o mundo. O mais grave de todos é a amamentação inadequada. Toda criança nasce, com predisposição para ser alérgica e dentre os fatores que promovem a sua mudança para a normalidade é a amamentação exclusiva. 

Sendo assim, toda criança deve receber leite humano exclusivo, até oito meses, até o final do fechamento da janela imunológica de alergia, que acontece por volta do oitavo mês de vida.  Esta medida deve ser mandatória, principalmente em filhos de pais alérgicos. Estas crianças, filhos de pais alérgicos, que recebem leite de vaca antes dos oito meses, tem aumentadas suas chances de terem alergia ao leite de vaca.

O segundo erro frequente é o uso indiscriminado da mamadeira ou copinho do leite de vaca nos berçários. A introdução do leite de vaca, antes do leite humano, gera uma resposta de ativação imune contra o leite de vaca, que pode perdurar por muitos meses ou anos e fará desta criança um paciente alérgico ao leite de vaca. 

O terceiro fator que contribui para o aumento da AA em todo o mundo é o excesso de higiene. Felizes aqueles que nascem em um ambiente rural e podem desfrutar de uma atmosfera rica em substratos que favorecem a resposta de maturação antialérgica do meio ambiente rural.  A grande maioria de nós, que vivemos nas cidades, temos como paradigma o excesso de higiene. 

Nossos partos são, em mais de 90% dos casos, totalmente estéreis, pela cesariana, impedindo que nossos recém-nascidos tenham contato com o canal de parto e que assim recebam, por deglutição, uma colonização precoce e desejável do trato digestivo. Os ambientes hospitalares e a pressão social nos impelem ao cuidado extremo de higiene. Este dilema do excesso de higiene ainda não está resolvido.

Outro fator que concorre para o aumento da AA em todo o mundo, decorre do uso exagerado de antiácidos e antibióticos. O uso indiscriminado de antiácidos ocorre em qualquer criança que golfa ou vomita. Esta conduta que hoje observamos como de rotina, contribui em muito para agravar a AA. 

Podem ser acrescidos a estes fatores as infecções precoces do trato respiratório, do trato digestivo e da pele, que quando presentes ativam as respostas alérgicas e fazem do órgão afetado por inflamação o órgão de choque.

É lamentável ver que a maioria destes fatores é passível de prevenção: estímulo ao parto normal e amamentação exclusiva. 

Um fato inconteste é que as alergias alimentares são mais frequentes em crianças do que em adultos. A seguir anotamos na figura os elementos que corroboram com a tendência que fazer as crianças a serem mais alérgicas que os adultos.

No próximo domingo, os recentes progressos relacionados ao tratamento do autismo

Scroll To Top