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Dom, Jul

Alergia alimentar: crescente problema de saúde pública

Por professor Aderbal Sabrá e professora Selma Sabrá, especial para O FLUMINENSE - Foto: Divulgação

Saúde
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Estudos científicos e a prática médica nos consultórios mostram que temos tido nas últimas décadas um aumento exagerado da incidência e da prevalência da alergia alimentar, tanto em crianças como em adultos, mas principalmente na população pediátrica. A alergia alimentar é mais comum em crianças do que em adultos e, ao considerar uma série de estudos publicados, é evidente que as estimativas de prevalência de alergia alimentar são mais altas quando se baseiam em auto-relato em comparação às estimativas baseadas na confirmação por testes diagnósticos.

Estudos mostram que a prevalência de alergia alimentar auto-relatada no continente europeu varia de 6% na Turquia a 42% na Polônia, sendo o grupo etário de 2 a 5 anos o de maior prevalência. No Canadá estudos aferiram que a prevalência de alergia alimentar auto-relatada é de 8% e dados americanos citam que esta é de 9% na população geral e de 7% em crianças.

ATENÇÃO: A alergia alimentar aumentou muito em crianças e chega a ser relatada pelos pais em até 40% dos filhos entre 2 e 5 anos

Todos nascemos para ser alérgicos

Durante a gravidez ocorre uma mudança imunológica no concepto que para não ser rejeitado durante a gestação, passa a desenvolver durante sua vida no útero materno o sistema imune de proteção à rejeição. Isto decorre do fato de que todos nós como seres humanos temos no nosso material genético metade de origem materna e metade de origem paterna.

Esta metade de origem genética paterna, ao chegar ao útero materno, apos ter fecundado o óvulo materno e iniciar uma nova vida, o consepto, faz com que este se apresente ao útero materno como corpo "estranho". Este consepto por ter material genético do pai, age como se fosse um corpo estranho, provocando uma resposta imunológica do útero materno, para sua rejeição. Neste momento ocorre o "milagre da gravidez", ou seja, o útero materno induz o consepto a mudar seu sistema imune para ser aceito pelo sistema imune materno. Esta mudança imunológica perdura por toda gravidez e o consepto vai nascer com seu sistema imune modificado, para ser alérgico. O recém-nascido nasce com o sistema imune da gravidez: nasce para ser alérgico.

ATENÇÃO: a gravidez é um "milagre", pois o útero materno aceita o material genético do pai, sem rejeição, embora ele seja um "corpo estranho"

Após o nascimento e nos primeiros meses de vida, a criança continua a se apresentar imunologicamente como era dentro do útero materno, com sua imaturidade e a capacidade funcional da imunidade adaptativa diminuída.

O principal marco biológico do indivíduo atópico é o aumento da habilidade de suas células imunológicas, os seus linfócitos, em produzir anticorpos, ou seja reagirem contra proteínas estranhas. Estes anticorpos aparecem em resposta a certos grupos de alérgenos ambientais que ativam o sistema imune através da inalação, ingestão ou penetração na pele. É assim que se desencadeiam as respostas alérgicas responsáveis pelas manifestações clínicas da doença alérgica. Este sistema de resposta alérgica está muito ativado desde o nascimento e perdura assim por mais de 8 meses de vida da criança. Nesta fase da vida pós-natal o único alimento que não ativa esta alergia é o leite materno ou os aminoácidos.

ATENÇÃO: o leite humano é o único alimento a ser usado pela criança neste estado de ativação imune, pois é da mesma espécie e não afeta a imunidade da criança

As superfícies do trato respiratório superior e inferior, assim como o trato gastrintestinal são continuamente expostas a uma série de antígenos patogênicos e não-patogênicos, os quais têm potencial de induzir respostas inflamatórias crônicas com participação imunológica no órgão afetado, desde que seja ativada a resposta alérgica da criança.

O primeiro alérgeno reconhecido pelo sistema imune em termos de produção de alergia é o alérgeno alimentar. Embora mais de 170 alimentos tenham sido identificados como fatores desencadeantes de alergia alimentar, os mais frequentes indutores de sensibilidade alérgica são: leite, ovo, amendoim, nozes, peixes, mariscos, trigo, soja e sementes. Estas proteínas ativam o sistema imune da criança, quando esta ainda está com seu sistema imune ativado.

Apesar da sensibilização aos alérgenos inaláveis, como os do gato, ácaros da poeira de casa e pólen já poder estar presente durante os três primeiros anos de vida, na maioria das crianças a clínica é observada mais tarde, na idade escolar. Para prevenir este acontecimento, o indivíduo deve desenvolver uma série de mecanismos que induzem a mudança em sua imunidade e o aparecimento da tolerância imunológica.

A genética e a expressão clínica do alérgico - Baseado nas alterações imunes descritas anteriormente é possível construir uma teoria sobre as bases das expressões clínicas da Alergia Alimentar. A expressão do clínica do ser alérgico depende de pelo menos dois grandes fatores: predisposição genética e interação ambiental, principalmente associada à alimentação e ao excesso de higiene.

A predisposição genética à alergia alimentar gira em torno de 30% quando um dos pais é alérgico e 80% quando ambos os pais são alérgicos.

Observa-se que a alergia alimentar é mais frequente em indivíduos com outras doenças atópicas. Existe uma elevada co-ocorrência de alergia alimentar com doenças alérgicas, incluindo a dermatite atópica, asma e rinite alérgica.

ATENÇÃO: quando os pais são alérgicos a chance do filho ser alérgico chega a 80%. Quando apenas um deles é alérgico a chance de alergia no filho é de 30%

A importância da flora entérica - Evidências apontam para um papel central das bactérias comensais na regulação das doenças imuno-mediadas. Postula-se que sinais derivados da flora entérica, chamada de microbiota, governam a suscetibilidade à resposta alérgica aos alimentos.

A depleção da microbiota (flora entérica), pelo tratamento com antibióticos, também altera a sensibilização alérgica correlacionada a depleção do sistema imune de proteção. Especula-se que certas famílias de bactérias promovem indução deste sistema imune de proteção, constituindo um possível fator protetor para a alergia.

As bactérias são os principais imunoestimulantes da resposta imunológica protetora. A esterilidade fetal e o parto cesáreo, com sua natural esterilidade ("germ free") são dois fatores de retardo para o crescimento da flora entérica. Sem a microbiota a criança segue com seu sistema imune para ser alérgica.

ATENÇÃO: o parto cesáreo, o excesso de higiene e os antibióticos retardam o amadurecimento do sistema imune pósnatal

É na vida pós-natal, com a colonização intestinal, estimulada pelo parto normal, pela passagem da criança pelo canal do parto, quando deglute boa quantidade de bactérias saprófitas de origem materna, que se vai permitir a mais rápida expressão do sistema imune que foi inibido durante a gestação, aparecendo então o equilíbrio imunológico desfeito pela gravidez. A criança então passa a ter um sistema imune normal.

Como regra, admite-se que o lactente nos quatro primeiros meses de vida responde como na vida uterina, para responder com um sistema imune de alérgico. Dos 4 aos 8 meses temos uma "janela" imunológica que deve ser cuidadosamente utilizada para as adaptações da dieta. Após os oito meses o sistema imune desativado pela gestação já esta maduro e então a criança se apresenta com seu sistema imune em equilíbrio, como vai seguir por toda sua vida.

ATENÇÃO: nesta fase da vida, de resposta para ser alérgico, o único alimento permitido é o leite materno. AMAMENTAÇÃO EXCLUSIVA ATÉ OS 8 MESES

O contato com antígenos alimentares de alto potencial alergênico antes dos 4 a 8 meses poderá ativar o braço da alergia como a criança nasceu, gerando alergia alimentar e prejudicando o amadurecimento imunológico adequado. Algumas crianças apresentam um atraso na aquisição de uma resposta de equilíbrio. Acredita-se que nestes casos a microbiota intestinal não esteja adequada para conseguir promover a imunoestimulação necessária para ativar o sistema imune de equilíbrio.

O retardo na obtenção desse equilíbrio ocasiona importantes seqüelas na vida destas crianças que incluem a redução da capacidade de responder às vacinas (vacina contra difteria, tétano, pertussis acelular, pneumocócica e a BCG), o aumento da susceptibilidade às infecções virais do trato respiratório superior, principalmente as causadas pelo Vírus Sincicial Respiratório, além do aumento da susceptibilidade às alergias alimentares, respiratórias, da pele e do sistema nervoso.

O recém-nascido apresenta disfunção gastrintestinal por imaturidade. A produção das enzimas digestórias é baixa nas primeiras semanas de vida, só atingindo ní-veis comparáveis ao adulto próximo ao terceiro mês, e o tempo de trânsito é prolongado nas porções altas do intestino delgado. Embora o pH seja ácido, o tamponamento conferido pelo leite sobreposto à menor disponibilidade de secreção clorídrica, aumen-ta o pH estomacal e dificulta a proteólise.

Há ainda imaturidade da célula epitelial intestinal, com deficiência na produção de IgA e de sua peça secretora, que permite que esta atinja as mucosas. Para compensar esta produção pessoal inadequada de IgA secretora, no período pós-natal, a criança recebe através da amamentação as IgAs produzidas pela mãe.

ATENÇÃO: a imaturidade do tubo digestivo do recém-nascido só é compensada pela amamentação exclusiva

Os órgãos linfóides são imaturos e o aparecimento da resposta imune local depende da presença de antígenos externos que estão ausentes no ambiente intra-uterino. Os anticorpos estão inicialmente ausentes no intestino e se desenvolvem a partir do nascimento na vigência de estímulos antigênicos, sendo a microbiota intestinal importante nessa estimulação. Esta produção de anticorpos não foi observada no prematuro com menos de 35 semanas de idade gestacional, facilitando a invasão sistêmica por microorganismos. Na fase neonatal ocorre, portanto, aumento da captação de antígenos através da mucosa intestinal, com possíveis conseqüências infecciosas, tóxicas e imunológicas.

O período de lactância e o período pré-escolar são particularmente importantes, pois o sistema imune encontra-se em processo de maturação e a interação com os antígenos interfere na imunomodulação. O feto desenvolve-se intra-útero comportando-se imunologicamente para ser alérgico e isto propicia tolerância materna aos antígenos do feto, necessária a continuidade da gravidez. O benefício inquestionável deste comportamento intra-útero pode se tornar um grande problema durante o período neonatal e lactância, devido à vulnerabilidade orgânica ao desenvolvimento de doenças alérgicas, uma vez que as respostas imunológicas a qualquer estímulo serão coordenadas pela via da alergia.

O conhecimento desta situação transitória de responder através do braço alérgico fornece substrato para que medidas preventivas e protetoras sejam adotadas objetivando a indução da resposta da maturação anti-alérgica, através do desenvolvimento do microbioma do lactente, e o bloqueio do processo da alergia alimentar, evitando proteínas de alto potencial alergênico e incentivando a amamentação exclusiva.

A criança terá que superar o nascer para ser alérgico, até o fechamento de sua janela imunológica, em busca do amadurecimento do seu sistema imune. Ressalta-se ainda nas crianças o atual declínio da diversidade microbiana, sustentado pela "hipótese da higiene", a função digestória ainda insuficiente, a permeabilidade intestinal aumentada e a reduzida produção de IgA secretora, ao nível de mucosas. Todos estes fatores promovem resposta imune para alergia.

ATENÇÃO: Essa conjuntura de fatores fornece dados para explicar o porque a alergia alimentar é mais frequente em crianças que em adultos.

 

Por professor Aderbal Sabrá e professora Selma Sabrá, especial para O FLUMINENSE

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