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Ter, Out

Transtornos Gastrointestinais Funcionais do Lactente (TGIFL)

Por doutor Pedro Garcia, a convite do professor Aderbal Sabrá e professora Selma Sabrá, especial para O FLU - Foto: Divulgação

Saúde
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Os TGIFL dos lactentes são desordens de caráter benigno e transitório mas que causam angústia e preocupação aos pais e cuidadores dos bebês.

São caracterizados por um conjunto de sintomas crônicos ou recorrentes que variam com a idade. Não tem origem em alterações estruturais, anatômicas ou bioquímicas, não atrapalhando o crescimento e desenvolvimento desses bebês.

Os mais comuns são as famosas cólicas, as regurgitações, a disquezia e a constipação funcional.

Existem critérios para caracterizar cada uma dessa situações. São chamados de critérios de ROMA IV (reunião de especialistas em Roma, em 1994 e, até hoje, com 3 revisões desses critérios). Vamos abordar cada um desses transtornos e suas características.

Cólicas do lactente:

Ocorrem em lactentes menores de 5 meses, caracterizadas por períodos recorrentes e prolongados de choro, agitação e irritabilidade, relatados por cuidadores, sem nenhuma causa aparente que não podem ser prevenidos ou resolvidos.

Para ser incluído no critério de "Cólicas do lactente", não podem apresentar febre, doenças ou comprometimento no seu crescimento e desenvolvimento.

O manejo da cólica deve incluir: tranquilizar pais e cuidadores, garantindo a situação transitória e benigna, evitando grau de stress e sensação de impotência que podem culminar com maus tratos como a "Síndrome do bebê sacudido".

Deve-se evitar uso de medicamentos antiespasmódicos e analgésicos. Uma dieta materna monitorada, com baixo nível de alimentos alergênicos, evitando leite de vaca e derivados, com suplementação de vitaminas e minerais para a mãe, por 2 semanas é recomendável, devendo ser suspensa caso não haja resposta adequada. O conceito de microbiota intestinal alterada abre perspectiva para o uso de probióticos (bactérias benéficas ao organismo) no manejo da cólica do lactente.

O aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida deve ser estimulado, quando se inicia a alimentação complementar, e deve ser mantido até 2 anos ou mais.

Os bebês em uso de fórmula infantil talvez se beneficiariam com fórmulas específicas com baixo teor de lactose e com proteínas parcialmente hidrolisadas ("quebradas" ).

Regurgitação do lactente:

De acordo com os critérios de ROMA IV, a regurgitação caracteriza-se por: Lactentes saudáveis entre 3 e 12 meses de idade, que apresentam duas ou mais regurgitações por dia, por 3 semanas ou mais e ausência de sinais de alerta como náuseas, hematêmese (presença de sangue no conteúdo expelido), bronco aspiração, dificuldade de ganho de peso, de deglutição e de alimentação ou postura anormal (arqueamento do tronco).

É importante diferenciar Refluxo Gastroesofágico (RGE) fisiológico e Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), como também afastar distúrbios metabólicos, neurológicos e infecciosos.

A APLV (alergia à proteína do leite de vaca) também deve fazer parte desse diagnóstico diferencial já que requer uma mudança radical na dinâmica familiar.

Os bebês que "golfam" muito, mas mantém um bom ganho de peso, não apresentam nenhuma manifestação de dor ou desconforto, são sorridentes, estão na classificação de RGE fisiológico ou "regurgitador feliz". Se estão em aleitamento materno exclusivo, deve-se orientar quanto ao excesso de mamadas, trocar a fralda antes das mamadas, evitar fraldas apertadas e acima do umbigo e evitar balançar o bebê após mamar. Colocá-lo para arrotar e, ao deitá-lo, barriga para cima.

Se estão em uso de fórmula infantil, evitar a superalimentação (quantidade de leite acima da sua capacidade gástrica). O uso de fórmulas espessadas (AR) pode ser útil. Ao primeiro sinal de alerta como falta de ganho de peso, presença de sangue nas fezes, fissuras anais, dermatites e sintomas respiratórios como asma e rinite, o diagnóstico de APLV deve ser investigado pelo pediatra.

Disquezia do lactente:

Ocorre nos primeiros meses de vida. Esses bebês ainda não amadureceram o complexo mecanismo do reflexo de evacuação. Não sabem coordenar o aumento da pressão intra abdominal com o relaxamento da musculatura do assoalho pélvico (ao redor do ânus). Chorando, eles aumentam a pressão intra abdominal para conseguirem evacuar. Apesar da dificuldade, as fezes são pastosas e sem sangue. Não requer tratamento; a resolução é espontânea com o amadurecimento gradativo da coordenação muscular.

Constipação funcional:

É definida pelos critérios de ROMA IV pela presença de, pelo menos, duas das seguintes situações abaixo, durante 1 mês:

o Duas ou menos evacuações por semana.

o História de retenção fecal.

o História de dor ou dificuldade evacuatória.

o História de fezes de grande calibre.

o Presença de grande massa fecal no reto.

Afastar doenças orgânicas é primordial. Observar sinais de alarme como fissuras anais recorrentes, sangue nas fezes, baixo ganho de peso, vômitos, história de atraso na eliminação de mecônio (fezes pretas eliminadas nas primeiras horas de vida), história familiar de hipotireoidismo, doença celíaca (intolerância ao glúten) e uma situação que requer intervenção cirúrgica denominada de mega cólon congênito.

Entre as causas de constipação funcional estão: o processo de introdução da alimentação complementar no sexto mês, a transição do aleitamento materno para a fórmula infantil, baixa ingestão de água e fibras, métodos coercivos e pressão familiar na fase do desfralde e retenção fecal que normalmente ocorre após uma evacuação dolorosa.

Cerca de 80% dos bebês apresentam mais de um TGFL.

Uma boa relação médico-paciente (no caso, a família) é fundamental para diminuir o nível de stress envolvido nessas situações.

O acolhimento, mostrar o bom crescimento e desenvolvimento desses bebês através dos gráficos existentes na Caderneta de Saúde da Criança (caderneta de vacinação) faz com que as orientações dadas pelo pediatra sejam seguidas com mais segurança e confiança pelos pais e cuidadores.n

 

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