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Pneumonia por óleo? Você já ouviu falar?

Por Dra. Selma Sias, pneumologista pediátrica, a convite dos professores Aderbal Sabrá e Selma Sabrá, especial para O FLUMINENSE

Pela radiografia, é impossível diferenciar a pneumonia lipoide da pneumonia bacteriana ou da tuberculose

Divulgação

Existe um tipo de pneumonia que é silenciosa e que é pouco conhecida até entre os médicos. É a pneumonia que acontece quando aspiramos substâncias ricas em gordura que penetram no nosso pulmão e dificultam a troca entre oxigênio e gás carbônico, chamada de pneumonia lipoídica (PL) ou pneumonia por aspiração de óleo. Diferente da pneumonia bacteriana, a PL não apresenta febre alta, não causa queda do estado geral, nem falta de apetite, mas evolui com falta de ar e respiração rápida. Pode ser facilmente confundida com a pneumonia bacteriana, com tuberculose e também com asma.

No Brasil, a causa mais comum deste tipo de pneumonia é a aspiração de óleo mineral. Este produto é muito utilizado para constipação intestinal (prisão de ventre) e também nos casos de infestação maciça por lombrigas (Áscaris lumbricoides). Vários destes vermes formam um novelo dentro do intestino da criança causando obstrução, dificultando a entrada de alimentos e a eliminação das fezes, além de muita dor e palidez. Geralmente, a criança é internada devido à dor e aos vômitos e o médico prescreve o óleo mineral para desfazer o novelo de vermes.

O homem apresenta um potente reflexo que é acionado quando algum material estranho tenta penetrar nos pulmões e este reflexo do engasgo e da tosse é inibido pelo óleo mineral, facilitando assim a penetração dele nos pulmões. Quem já não engasgou ao engolir um gole de água? Imediatamente tossimos com tamanha força que é capaz de eliminar a minúscula gotícula de água que entrou abaixo de nossas cordas vocais. Mas, ao engolir o óleo, como ele inibe este reflexo, é comum ele ser direcionado para os pulmões, causando a pneumonia. A criança tem febre baixa (inferior a 37.8ºC), tosse e cansaço.

Ao chegar nos pulmões, nossas células de defesa tentam engolir todo aquele óleo, mas não conseguem digeri-lo, e assim acabam morrendo, e o óleo volta para os alvéolos, prejudicando a troca de oxigênio. Por isso, a criança fica com a respiração cansada e rápida. Como ele é considerado um corpo estranho, porque o que teria que estar dentro dos alvéolos seria oxigênio e não óleo, a criança começa a apresentar febre. Neste momento, a mãe vai levá-la na emergência por causa da febre, e como está com a respiração alterada, geralmente é realizada uma radiografia do tórax. O resultado é que a criança sai tratada como pneumonia bacteriana porque a alteração na radiografia é muito parecida com a PL. Desta forma, fica muito difícil o médico fazer o diagnóstico de PL, a não ser que o responsável pela criança o informe que ela está ou fez uso de óleo mineral.

Veja ao lado uma radiografia com pneumonia lipoide por aspiração de óleo mineral num menino com 1 ano e 8 meses de idade. É muito difícil a diferenciar da pneumonia bacteriana ou da tuberculose, pois as alterações encontradas nas radiografias não permitem distinguir que tipo de pneumonia é.

Como combater esse tipo de pneumonia? A solução é simples: não deve ser utilizado óleo mineral para tratamento de constipação intestinal nem de suboclusão por áscaris. Caso haja realmente a necessidade de administrar o óleo mineral, este deverá estar misturado com alimento, e nunca deverá ser dado para beber isoladamente.

Ainda não existe uma proposta única de tratamento para a PL. Porém o consenso geral é a não prescrição do óleo mineral. Por outro lado, a retirada mecânica do óleo dos pulmões pode ser obtida através da broncoscopia com lavado broncoalveolar, porém este é um exame que não é inofensivo e, na criança, necessita ser realizado sob anestesia geral, no hospital.

Assim, o melhor mesmo é evitar o uso do óleo mineral.

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