Drama sem fim em Maricá

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Em menos de um ano, moradores do conjunto habitacional Carlos Marighella perderam tudo no alagamento.

Foto: André Redlich

O drama das quase mil famílias que ficaram ilhadas no conjunto habitacional Residencial Carlos Marighella, em Itaipuaçu, distrito de Maricá, ganhou mais um capítulo na manhã desta quarta-feira (2). Muitos moradores se recusavam a deixar os imóveis alagados por medo de saques. Outros preferiram retirar móveis e objetos pessoais, inclusive dos apartamentos que ficam nos andares mais altos. Devido a situação a Prefeitura está finalizando uma relatório que poderá decretar ainda nesta quinta-feira estado de emergência na cidade.

Para reforçar a segurança, uma equipe de policiais da Unidade de Policiamento Ambiental (UPAm) foi encaminhada para realizar um patrulhamento com barcos e botes. De acordo com a Defesa Civil, cerca de 2,5 mil pessoas estão desalojadas e outras 360 estão desabrigadas em todo o município.

Moradores ainda tentam recuperar móveis e eletrodomésticos do alagamento.

Foto: Marcelo Feitosa

O conjunto habitacional, pertencente ao programa Minha Casa Minha Vida, é composto por 1.472 apartamentos, divididos em cinco blocos, totalizando 184 prédios. Cada edifício é dividido em dois andares, com oito apartamentos em cada pavimento. Nem todas as casas estavam ocupadas, apenas cerca de mil, de acordo com a Defesa Civil. O órgão ainda está realizando um levantamento para saber quantas pessoas permanecem no local. 

Alguns apartamentos estavam com portas e janelas arrombadas. De acordo com moradores, ladrões entraram nas casas abandonadas para roubar televisões e outros objetos de valor. No entanto, nenhum caso foi confirmado pela polícia. 

“Tentaram entrar na minha casa. Minha porta estava arrombada, toda quebrada. Moro no primeiro andar e perdi meus móveis que tinha acabado de comprar. As pessoas não se sensibilizam com a nossa dor. Muita falta de respeito”, lamentou Marília do Nascimento, de 33 anos, que ocupou um apartamento vazio, do segundo andar, já que não tem parentes para abrigá-la.

“É um sonho que acabou. Nos mudamos para cá há pouco tempo e estávamos montando nossa casa, comprando nossas coisas. Não deu tempo nem de acostumar com a ideia de morar aqui. A chuva nos tirou tudo”, declarou a moradora Vanessa da Conceição, de 35 anos, que teve a janela de sua casa arrombada. Segundo ela, no dia da tragédia, a água chegava na altura do pescoço e poucas coisas foram salvas.  

Na tentativa de resgatar o que sobrou e salvar animais de estimação, moradores se arriscavam pela água, que já batia na cintura. Os amigos Edson Francisco dos Santos, 52 anos, e Michel Reis, 24, preferiram continuar em casa para vigiar o que restou.

“Não vou arriscar sair daqui e perder o que ainda me resta. Estão invadindo as casas. Isso é um absurdo. Já perdemos muita coisa para deixar levarem o que ainda tem”, declarou Edson.

Equipes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros foram deslocadas para o condomínio, auxiliando moradores a retirar seus pertences através de botes, além de resgatar aqueles que estão ilhados. Cerca de 50 homens das Forças Armadas também prestaram ajuda ao município.

Todas as ruas internas do condomínio foram tomadas pelo alagamento e a enxurrada invadiu todos os apartamentos do térreo, cerca de 700, obrigando as famílias a saírem do local. Nesta quarta-feira o nível da água baixou para um metro. Porém se fazia necessário ainda o resgate através de botes, tratores e caminhões da Marinha. Pelas ruas do residencial, carros estavam abandonados e alguns submersos. 

O casal Neide Samara de Oliveira, 24, e Edson Teles, 29, contou sobre os momentos de desespero que viveu na última segunda-feira. Edson é portador de necessidades especiais e tem uma perna mecânica. A dificuldade de se locomover e salvar os dois filhos, um de 3 e outro de 5 anos, foi classificada, pelo casal, como um dos momentos mais críticos que eles viveram até agora.

“A gente estava preso em casa desde segunda, só conseguimos ser resgatados ontem (terça). Não temos para onde ir e não sei como vai ser a minha vida a partir de agora”, desabafou Edson, que ainda preparava uma festa de aniversário para a próxima sexta.

“Eu vou completar 30 anos sexta, e olha o presente que eu ganhei! Perdi as minhas compras, perdi meus móveis, perdi tudo. Não há o que comemorar”, lamentou.

A falta de água e de luz agravou a situação. Uma força-tarefa foi montada para enviar alimento e água para quem permanece ilhado. 

O ocorrido já é considerado pelos próprios moradores como uma tragédia anunciada. Vizinhos contaram que o histórico do local, que é cercado por rios e lagoas, sempre foi de alagamentos. 

“Quando cheguei aqui, já imaginei que algo assim poderia acontecer. O condomínio é como um bolsão. A pista está num nível mais elevado. Construíram isso aqui sabendo do risco”, disse Neide. 

A doméstica Eva Rosa da Silva, de 70 anos, mudou-se para o condomínio há cinco meses. Segundo ela, nenhum de seus móveis pôde ser recuperado. 

“Fiquei feliz de ganhar um apartamento no Minha Casa Minha Vida. Conseguir uma casa com 70 anos é uma bênção. Mas hoje eu estou muito triste, pois colocamos os móveis na casa e nem chegamos a colocar a roupa no armário. Acabou!”, disse Eva, abalada com a situação. Ela morava em um dos apartamentos localizados no primeiro andar. 

Por causa da situação do município, que ainda apresenta vários pontos de alagamento, e do grande número de pessoas desabrigadas foi solicitada ajuda ao Ministério da Defesa, que enviou homens do Exército e da Marinha. 

De acordo com o secretário municipal da Defesa Civil de Maricá, Luiz Carlos dos Santos, os desabrigados estão sendo encaminhados para as escolas e igrejas mais próximas dos locais atingidos pela chuva, que incluíram o centro da cidade e o bairro São José do Imbassaí. 

“Tivemos dois fatores causadores dessas enchentes. Primeiro foi uma questão natural. O volume de chuvas que caiu aqui em seis horas era o suficiente para provocar um alagamento em qualquer região, levando em consideração a questão da vulnerabilidade daqui. O outro fator é que essa área é cercada por muitos rios e canais, que desembocam a água na lagoa, e por consequência no mar”, explicou o secretário.

Ainda segundo ele, o município tenta uma autorização do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea) para a abertura de um canal entre a lagoa e o mar, medida que facilitaria o escoamento da água. No entanto, de acordo com Luiz, a resposta era de que o caso estava em análise. 

Considerando o fator emergencial, a Secretaria Municipal de Obras disponibilizou funcionários para realizar a dragagem do canal da Barra, paralelo ao condomínio. A intervenção foi iniciada na última segunda-feira.
 
“Só com esse escoamento da lagoa vamos conseguir diminuir o nível da água no condomínio”, ressaltou o secretário da Defesa Civil do município.
Além disso, a Prefeitura de Maricá desapropriou dois terrenos localizados ao fundo do conjunto habitacional para iniciar a construção de dois piscinões.

“Assim que as águas abaixarem, os técnicos darão início à construção de dois piscinões , que serão utilizados no primeiro escoamento dessas águas, de maneira que isso não ocorra mais. A água será escoada para os piscinões e depois para os rios”, explicou Luiz. 

O canal do Recanto, na extremidade do bairro, foi aberto pela Secretaria Municipal Adjunta de Obras e está ajudando a drenar a região. Em auxílio às famílias que perderam móveis e eletrodomésticos, a prefeitura providenciou a compra de kits com fogão, geladeira e colchões para equipar as casas que serão dadas pelo município. Para isso, funcionários do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) realizavam o cadastro das famílias.

A Caixa Econômica Federal, responsável pelo empreendimento, informou, através de nota, que “a seleção do terreno do Conjunto Habitacional Carlos Marighella observou todas as normas do Programa Minha Casa Minha Vida, tendo recebido alvará e habite-se do Governo Municipal”.

A Caixa ainda esclareceu que enviou equipes ao local desde a última terça para uma vistoria técnica, para que, assim, sejam tomadas as devidas providências.

Doações – Moradores de outros bairros de Maricá se comoveram com a situação e montaram uma força-tarefa na entrada do condomínio. Sopas, pães, água e café eram oferecidos aos desabrigados e desalojados. Além disso, roupas também estavam expostas para doação. “Tenho amigos e parentes que moravam aqui e perderam tudo. Então, em solidariedade, resolvemos reunir um grupo para distribuir almoço e lanche e doar roupas. Acho que essa atitude vai diminuir um pouco a dor das famílias. O amor ao próximo é tudo”, declarou uma das doadoras, a professora Elizabeth Souza, de 40 anos.

O município também está recebendo doações para ajudar as famílias necessitadas na Escola Municipal Levi Ribeiro (Rua B, s/n, São José do Imbassaí)

Centro de Educação Infantil Valeria Passos (Rua Deoclecio Machado, s/n – antiga Rua 8 –, Itaipuaçu)

Em todos os CRAS

Paço Municipal (Rua Alvares de Castro, 346, Centro)

Sal da Terra (Rua Alvares de Castro, Centro)

Igreja Unção do Crescimento (Avenida Carlos Marighella, Itaipuaçu).