Médico contesta viúvo de modelo

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O médico Wagner de Moraes compareceu pela manhã na Delegacia de Jurujuba para prestar depoimento sobre o caso da morte da modelo Raquel Pontes, de 28 anos

Douglas Macedo

O cirurgião plástico Wagner de Moraes, responsável por um procedimento estético na modelo Raquel Pontes, de 28 anos, realizado em sua clínica, em São Francisco, na segunda-feira, prestou depoimento nesta quinta-feira (15) na 79ª DP (Jurujuba). Ele negou que tivesse se ausentado da clínica após saber que a paciente passava mal, como havia dito o marido dela, o empresário Gilberto Azevedo, em depoimento anterior. 

Acompanhado de sua advogada, Veronica Lagassi, o médico confirmou ao delegado Mario Lamblet que saiu da clínica, mas disse que a paciente só passou mal depois e que retornou assim que foi avisado pelas enfermeiras. “Eu saí e logo depois recebi a ligação de que ela estaria se sentido mal e tive que retornar. Não ficamos nem cinco minutos no consultório e seguimos direto para o hospital. Eles em um carro e eu em outro. Ela [a modelo] chegou com vida ao Hospital de Icaraí”, declarou o médico, afirmando que em nenhum momento negou socorro ou se omitiu. A modelo morreu momentos depois de dar entrada na unidade, após sofrer parada cardiorrespiratória.

Sobre ter mencionado na declaração de óbito o fato da modelo fazer uso de anabolizantes para animais e ser “fumante inveterada”, Wagner de Moraes comparou a paciente a uma “bomba-relógio”. “O que aconteceu no consultório poderia ocorrer em qualquer lugar. Os problemas respiratórios poderiam ocorrer em uma academia ou até mesmo na rua. Ela omitiu o uso desses medicamentos impróprios e ainda sofria de asma. Eu soube disso através do marido, depois do procedimento”, afirmou. 

Wagner de Moraes se disse surpreso com a repercussão que o caso tomou, mas afirmou estar tranquilo. “Caramba, isso tomou um caminho complicado e assustador. Mas estou tranquilo quanto ao procedimento que fiz à paciente em meu consultório. Não houve nenhum tipo de cirurgia, foi apenas a aplicação de uma substância. Quando levamos a Raquel para o hospital ela reclamava de dores e falta de ar. Ela chegou acordada à unidade e ainda reclamava muito”, disse o médico, reafirmando que após o procedimento estético deixou a clínica com a paciente ainda em estado estável. 

A advogada Veronica Lagassi disse que não vê nenhuma relação entre o procedimento médico e a morte da modelo. “Ele [Wagner] conversou e disse que esse tipo de procedimento não influenciaria em nada o problema de falta de ar da paciente. Ele está colaborando e se colocou à disposição para outras explicações à polícia”, disse a defensora. 

O delegado Mario Lamblet, titular da DP de Jurujuba, disse que o médico informou em depoimento que não faz parte do quadro de integrantes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), mas que isso não o impedia de exercer seu trabalho. Ainda segundo o delegado, Wagner teria dito que o local onde aconteceu o procedimento não é usado como clínica, mas sim como um consultório. Porém, Wagner alega que o espaço está apto para pequenos procedimentos. 

“Ele nos entregou alguns documentos preenchidos pela paciente e nós apreendemos também o material que foi usado na modelo durante o procedimento”, disse o delegado.
 
Lamblet informou que o viúvo terá que prestar um novo depoimento. Além dele, o delegado quer ouvir os médicos de plantão no Hospital Icaraí e os funcionários do cirurgião plástico que estavam na clínica no momento em que a modelo se sentiu mal. O laudo da necropsia deve ficar pronto em até 15 dias. À noite, médicos do Hospital Icaraí também prestaram depoimentos na delegacia, que não haviam terminado até o fechamento desta edição. Procurado, o viúvo não retornou as ligações para o celular dele.

Moradora da Trindade, em São Gonçalo, e finalista do Concurso Musa do Brasil, como representante do Estado do Mato Grosso, Raquel morreu na noite da última segunda-feira após se submeter a um procedimento estético no consultório do cirurgião plástico Wagner de Moraes. Segundo o marido, após o procedimento a modelo alegou dores no corpo e falta de ar. Já no Hospital Icaraí, após tentativas de “ressuscitação” da paciente, os médicos confirmaram o óbito por volta das 21h40. 

Na declaração de óbito, fornecida pela Fundação de Saúde de Niterói e assinada por Wagner de Moraes, o médico atestou que a causa da morte da modelo é desconhecida. No mesmo documento, o médico fez anotações à caneta autorizando o sepultamento antes de 24 horas. O velório, que acontecia na terça-feira no cemitério Parque da Paz, em São Gonçalo, foi impedido pela polícia, que conseguiu ordem judicial para que o cadáver passasse por necropsia. O corpo de Raquel só foi enterrado no dia seguinte, no mesmo cemitério. A modelo, de 28 anos, era casada com o empresário Gilberto de Azevedo há mais de dez anos e deixou dois filhos, um adolescente de 13 anos e um menino de oito.

Comunicado – Após o incidente, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) divulgou nota em que se refere ao médico Wagner de Moraes pelas iniciais: “Médicos como o doutor W. M., que se denominam ‘cirurgião plástico’ sem nunca ter sido titulado para tal, ludibriam seus pacientes, abusando de sua boa-fé e criminalizam o exercício da profissão à guisa do que preconiza a Comissão Mista de Especialidades formada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Associação Médica Brasileira, Conselho Federal de Medicina e Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Saúde, únicos a regulamentar o reconhecimento do médico especialista, como acomoda o Decreto da Presidência da República 8.516/15”, diz um trecho da nota que ainda faz um alerta a outras entidades da classe. 

“É preciso que o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, Conselho Federal de Medicina investiguem duramente o caso para apurar a relação entre o procedimento ocorrido na clínica e a morte de R. S., assim como é imprescindível fiscalizar a utilização irregular da titulação de “Cirurgião Plástico” feita pelo mesmo doutor e por outros profissionais na tentativa de transmitir uma imagem de formação, perícia e competência que não possuem”.