A Miseri-Córdia

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Termina neste mês o Ano da Misericórdia: pensado, querido e promulgado pelo Papa Francisco. Em novembro, quero dedicar este espaço para pensar mais uma vez a Face misericordiosa de Deus. Vou começar tomando emprestado de Santa Teresinha a experiência que ela teve do amor de Deus e tentar passar para vocês, em poucas linhas, a curta existência de 24 anos que fez dela uma Doutora da Igreja, mesmo sem nunca ter estudado teologia.

Nunca é possível falar o suficiente, que dirá bastante, de S. Teresinha de Lisieux (1873-1897). Ela entrou no Carmelo aos 15 anos e morreu aos 24 anos, uma vida curta demais para tudo o que experimentou e viveu. Depois de sua morte, os seus escritos espalharam-se pelo mundo e milhões de pessoas foram tocadas por sua mensagem. Poucas semanas antes de falecer, disse a célebre frase que a marcou para sempre: “Passarei meu Céu fazendo o bem na Terra!”

Um dos seus temas favoritos era a misericórdia de Deus. Isso, numa época marcada por muitas intransigências e pelo pensamento positivista, que na virada do século teve a pretensão de varrer Deus do espírito humano. Teresinha ajudou milhões de pessoas a descobrirem a paternidade de Deus. 

Como tudo começou?

Tudo começou quando a Madre Superiora do Carmelo pediu que Teresinha escrevesse seus pensamentos. No começo, ela não estava animada a atender. Mas depois, percebeu quanto bem poderia fazer para as pessoas se escrevesse tudo o que sentia a respeito de Deus.

E sabem de onde ela tirou seu amor?

Da ideia que tinha de Santa Maria Madalena. É curioso como tinha ciúmes da Madalena e do amor que Jesus tinha por ela, pelo fato de tê-la perdoado tanto. Mas um dia, Teresinha compreendeu que se Jesus havia perdoado Madalena, ele a havia perdoado ainda mais: ele a havia perdoado por antecipação. “Com grande doçura, diz Teresa, ecoa em minha alma a palavra de Jesus a Simão. Eu sei que menos ama a quem menos se perdoa. Mas não ignoro também que a mim Jesus perdoou mais que à Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, uma vez que me impediu que caísse”.

Teresa experimentou a misericórdia de Deus não apenas na própria vida, mas também na vida dos outros. Isso a fez ganhar uma visão muito mais ampla do amor sem limites, que faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos (Mt 5,45). Esse é o paradoxo de Deus: nem a noção grega de justiça nem a noção do direito romano lhe caberiam. Nem mesmo a noção de pureza ritual dos judeus lhe caberia. Para ser Deus, Ele teve de abrir mão de todas as concepções que os homens lhe atribuiriam, e correr o risco de não ser aceito sequer pelos que criou. Para os marqueteiros modernos, Deus seria um desastre!

Neste sentido, a história do assassino Pranzini é reveladora. Teresa o chamou de “seu primeiro filho”, a primeira pessoa que ela salvou pela oração. Para os jornais: um “monstro”. Para Teresa: um “filho”. Insondáveis mistérios da misericórdia!

Semana que vem conto essa história.