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Sem nos darmos conta, somos todos herdeiros de tanta coisa! E a retumbante verdade abrange pobres e ricos. Força, coragem, medo, ousadia, rancor, paranóia, liberdade... estão no espólio da humanidade e, além de caber a cada um as específicas "joias" inerentes à sua raiz, há também outros arquétipos que veem de raiz em raiz por baixo da terra da subjetividade cultural, desde a invenção da humanidade.

Precisamos estar atentos para não repetirmos Medéias e matarmos até nossos filhos, para ferir o amor que não nos quer mais, ou Pôncio Pilatos que lavou as mãos quando teve nelas o poder de decidir e de evitar uma grande injustiça com um homem amoroso, fundador do aforismo mais antibélico de que se tem notícia: amai-vos uns aos outros. Não o fêz e, embora o mito afirme que o feito foi para salvar a humanidade, continuamos perdidos.

Mas há também os sonhos de vovô Dom Quixote, a iluminação do imperador Juliano, a coragem dos navegadores portugueses, as lições dos índios nos fizeram adorar banho, mandioca e a amizade, verdadeiro motivo do escambo. Também podemos herdar os tremores e temores das consequências da escravidão, suas feridas, a podridão do espírito de um convicto senhor de escravos moldando ainda o patrão de agora. 0u a potente fé na liberdade dos obstinados abolicionistas nos que lutam hoje pela justiça igual para todos. 

Está tudo aí. Cartas na mesa. Somos jogadores e desfrutadores de tais resultados. Mas assim como há aqueles imóveis tão condenados por cupins e intrigas, que se começa a achar melhor a vida quando não havia a energia da tal amaldiçoada herança, há também abstratos bens. Atentos, podemos rejeitar aquele bem se nele vier muito bem acomodado o mal. Se uma casa da praia fosse custar o amor pelo meu irmão, então, sinceramente, não quereria a casa da praia. O preço que ela cobra é alto para mim. Se caixão não tem gaveta e o que a gente leva da vida é a vida que a gente leva, precisamos aprender a fazer esta conta de matemática relativamente simples. 

Podemos perceber as doideiras danosas que herdamos dos antepassados e falar não, não quero esta merda de gerações de friezas e rancores paternas ou maternas, por exemplo. Comigo a praga muda de rumo: vou ser amoroso com meu filho e explodir a maldição da família. Ou, não, não vou ser mais um médico frustrado que se viu obrigado a sê-lo para honrar pacientes e consultórios herdados e perdurados por gerações sobre o sacrifício de muitos outros dons. 

Há um ponto em que o cordão da horda, o novelo da história chega à nossa mão e é nossa a vez de jogar. Se não usamos nossa carta, seguiremos a jogada do último jogador antes de nós. E pode ser aquela uma mesma carta repetida há anos, promovendo tragédias transgeracionais. 

Mas em meio à lama tóxica da intolerância geral, tenho visto muita gente pensando na sustentabilidade, no outro, na comunidade do planeta. A vida e suas relações de afeto é só o que importa. Não perde aquele que perdoa. O perdão tem duas pontas e liberta também o "perdoador" daquela dor perdurada no peito. Há muita gente resgatando o parto normal e sua natural inteligência corporal; há gente executiva que vai trabalhar de bicicleta na cidade, tal qual um trabalhador rural. 

A humanidade, sempre que se vê à beira do abismo, é obrigada a dar ré retomando a memória do que é do passado, mas ainda é visto e válido como avanço da humanidade. Precisamos caminhar para o desapego com uma sociedade com carros, táxis e bicicletas compartilhados. O pronome possessivo tem aumentado número de mortes e espalhado a guerra que cresce proporcionalmente à indústria das armas.

O impressionante Papa Francisco tem puxado a orelha do mundo que gasta quase toda sua energia em "comprar" a felicidade, e nos perguntamos como se transformou na maior festa consumista do mundo o dia do nascimento do iluminado bebê da manjedoura.

Tenho honra de ser herdeira do nome de minha avó, um luxo. Creio que separar o joio do trigo é isso, identificar nos inúmeros inventários, que bem realmente corresponde à palavra. Sabe como é? Se fizer mais mal do que bem, bem não é.